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domingo, 3 de março de 2013

COLETÂNEA O CANDOMBLÉ - A TROCA DE DIVINDADES


A Troca de Divindades, Muitos Querem Ser do Òrìsà da Moda. 

As questões Éticas do Candomblé, embora abrangentes, estão sendo deixadas de lado por grande parte da população Candomblecista. Por essa razão, nós do Terreiro de Òsùmàrè, resolvemos publicar essa série de postagens, com o objetivo de recordar isso que é tão importante para a sobrevivência da nossa cultura. É ainda, uma forma de interação com os nossos leitores, que há algum tempo, vêm nos pedindo artigos sobre os temas inerentes a Ética Moral e Religiosa do Candomblé. 

Hoje vamos abordar um tema bastante recorrente na última década e, principalmente, nos últimos anos, que é a mudança de Òrìsà de uma pessoa iniciada. 

Há duas molas propulsoras para esse “fenômeno”. A primeira, mencionada em nossa postagem anterior, é o Sacerdote caçador de cabeças, que fala para o iniciado que ele deve mudar de santo, que tudo que fizeram está errado, etc.. A segunda e também em número crescente é o iniciado que almeja trocar de santo – para “passar a ser” do chamado “Òrìsà da Moda”. Em ambos os casos, a Ética é deixada de lado, seja pelo Sacerdote, seja pelo Omo Òrìsà. 

Infelizmente, observamos com pesar que algumas pessoas que foram iniciadas para uma Divindade, muitas vezes por modismo temporal, resolvem esquecer que são dessa Divindade para “passar a ser” do “Òrìsà da Moda” (resumidamente, Yewa, Iroko e Oba), isso se torna ofensivo à Ética Moral, sobretudo quando há Sacerdotes que atestam essa condição. 

Em miúdos, isso significa que, uma pessoa que é filha de Òsun hoje, pode achar que Yewa está mais na moda e procura alguém que lhe “coloque” esse Òrìsà em seu Orì, certificando-a na sala. Aqui, ao invés da busca do Sacerdote em querer valer a sua “autoridade” está a busca pela ascensão financeira. Ou seja, se a pessoa pagar bem, eu digo que ela é do Òrìsà que ela almejar. Novamente a Ética e Moral são deixadas de lado, bem como, a sentido da religião, que é a vontade do Òrìsà. 

Mas porque alguns Omo Òrìsà fazem isso? Em verdade, acreditam que sendo de uma Divindade “da Moda”, terão ascensão religiosa e prestígio. No entanto, se esquecem do Òrìsà que foi cultuado por anos, o que certamente lhe trará prejuízos futuramente. 

Mas onde foi parar a Divindade que ao longo de anos manifestou aquela pessoa que, a partir de agora, diz ser filho de um “Òrìsà da Moda”? Aqui está a parte mais complexa: Será que a Divindade deixou de manifestar aquela pessoa? Será que a “nova” Divindade que manifesta a pessoa, verdadeiramente é a Divindade que eles acreditam ser? Será tratar-se de um Òrìsà? 

O Candomblé é uma religião muito complexa, que muitos podem acreditar conhecer, mas que esconde segredos difíceis de serem compreendidos e assimilados. 

A cabeça do ser humano é algo muito sério, razão pela qual, tudo que é feito na cabeça de uma pessoa deve ser com muito cuidado, atenção e, sabedoria. 

Obviamente, todos, invariavelmente são suscetíveis a erros e falhas, mas as Casas de Candomblé mais antigas precisam se manifestar contrárias àqueles que acreditam estar acima do bem e do mal e, principalmente, àqueles que acreditam estar acima do próprio Òrìsà. 

Não se pode ficar mudando de Òrìsà como se muda de roupa. Òrìsà é o Deus que nos rege, que cuida, que zela por nós. Não se pode descartá-lo. 

É fundamental que a Ética, a Moral e os Valores sejam relembrados, é importante deixarmos de pregar a união, para de fato fazermos a união. O Candomblé não possui um colegiado formal de sacerdotes, mas não duvidem, ainda há um grupo sério de sacerdotes que atentamente está observando com atenção, tudo o que está ocorrendo acerca do Candomblé. 

Que nosso Pai Òsùmàrè Àráká cubra de bênçãos cada pessoa que, verdadeiramente, está voltada para a religião dos Òrìsàs. 

Ilé Òsùmàrè Arákà Asè Ògòdó

COLETÂNEA O CANDOMBLÉ - UM CONTO SOBRE A LÍNGUA



Conta-se que certa vez um homem, rico, ofereceu um banquete com comidas especiais. Chamou seu mordomo cigano e ordenou-lhe que fosse ao mercado comprar a melhor iguaria. O gipsye retornou com belo prato. O homem removeu o pano e assustado disse: Língua?! Este é o prato mais delicioso? O cigano, sem levantar a cabeça, respondeu: A língua é o prato mais delicioso, sim senhor. 

É com a língua que pedimos água, dizemos "mamãe", fazemos amigos, perdoamos. Com a língua reunimos pessoas, dizemos "meu Deus", oramos, cantamos, dizemos "eu te amo"

O homem, não muito convencido, quis testar a sabedoria do gipsye, e o mandou de volta ao mercado, desta vez para trazer o pior alimento. O cigano gipsye voltou com um lindo prato, coberto por fino tecido. O homem, ansioso, retirou o pano para conhecer o pior alimento. Língua, outra vez?!, disse, espantado. Sim, língua, respondeu o cigano. É com a língua que condenamos, separamos, provocamos intrigas e ciúmes, blasfemamos. É com ela que expulsamos, isolamos, enganamos nosso irmão, xingamos pai e mãe. 

Não há nada pior que a língua. Depende do modo que a usamos. 

Muitos males têm sido causados por uma só palavra ou frase proferida. Diz um ditado que "falar é prata, calar é ouro". Palavras ferem, matam, magoam, semeiam dúvidas, fazem pecar, geram ódio e muitas vezes quem diz o que quer, ouve o que não quer. Uma palavra, uma frase, pode doer mais que a dor física. A dor física pode cessar com um medicamento, mas a dor provocada por uma palavra ou frase, muitas vezes nem o tempo apaga, e, quando apagada, costuma deixar cicatrizes. 

Use a lingua somente para transmitir o kambulin, paz e felicidade. FAMÍLIA GIPSYE KAMBULIN

COLETÂNEA O CANDOMBLÉ - A ÁRVORE DA JUREMA



Desde o século XVI, documentos escritos pelo colonizador e narrativas deixadas por cronistas e viajantes relatam rituais mágico-religiosos encontrados entre populações indígenas do nordeste brasileiro, em que bebiam, fumavam, manipulavam ervas, invocavam seus antepassados. Um desses escritos descreve a santidade do Jaguaripe ocorrida no sertão baiano por volta de 1583, evidencia um processo de religiosidade sincrética nascida no encontro entre missionários e índios e revela relações de dominação-subordinação entre nativos e portugueses. 

O culto aos maracás da santidade reproduz a crença de que os maracás abrigavam os espíritos, sendo adorados e idolatrados através de cantos, danças e do uso do tabaco. Apresenta-se simbolicamente como uma forma de resistência da população indígena contra a colonização portuguesa. 

Um outro documento menciona o falecimento na prisão, em 1758, de um índio da aldeia de Mepibu, no Rio Grande do Norte, preso por ter feito adjunto de jurema, cerimônia coletiva com fins religiosos e terapêuticos, em que dançavam, fumavam cachimbo e bebiam jurema. 

Em 1816, o viajante inglês Henry Koster observa uma dessas cerimônias realizadas nos arredores de Olinda e descreve que havia um grande vaso de barro no centro da cabana em torno do qual dançavam homens e mulheres e o cachimbo era passado entre os participantes. 

A prática da jurema nordestina, também conhecida como catimbó, é parte de um longo processo de transformação e assimilações culturais que se difundem pela região, sendo encontrado nas comunidades indígenas e no interior de diferentes religiões afro-brasileiras, como o candomblé, o xangô e a umbanda. 


A jurema compõe um complexo de concepções e representações em torno da planta jurema e se fundamentam no culto de possessão aos mestres, cujo objetivo é curar os doentes e resolver os problemas práticos da vida cotidiana, como os infortúnios amorosos e profissionais. Como ressalta Roger Bastide, o que conta “são os desejos ou as necessidades individuais, é a vida cotidiana com suas doenças, seus romances de amor, seus ganhos, suas tristezas e seus sonhos de um futuro melhor”. Esse complexo inclui ainda a bebida preparada com a casca da jurema e o uso da fumaça dos cachimbos nos rituais. 

O culto tem por base um sistema mitológico no qual a jurema é considerada árvore sagrada e, em torno dela, dispõe-se o “reino dos encantados”, formado por cidades, que por sua vez são habitadas pelos “mestres”. Uma outra explicação mitológica apresenta uma visão cristã quanto às origens do culto ao afirmar que, antes do nascimento de Deus, a jurema era tida como uma árvore comum, mas, quando a virgem, fugindo de Herodes, no seu êxodo para o Egito, escondeu o menino Jesus num pé de jurema, que fez com que os soldados romanos não o vissem, imediatamente, a árvore encheu-se de poderes sagrados, justificando, assim, que a força da jurema não é material, mas espiritual, dos espíritos que passaram a habitá-la. 

O mestre é a entidade espiritual central da jurema nordestina. Os mestres são falecidos juremeiros que detinham os conhecimentos de sua prática. Segundo Mário de Andrade, no século XVII, em Portugal, os feiticeiros curadores eram chamados de mestres. Nas cerimônias da jurema, também se denomina mestre o dirigente de uma sessão. Os mestres vivos incorporam os mestres mortos que habitam as cidades sagradas da jurema, ligando esses dois mundos por meio do transe. Os mestres seriam espíritos curadores que, em vida, conheceram os segredos das plantas curativas e que são convocados para trabalharem em uma sessão, a fim de aliviar os sofrimentos humanos. 

Cada um tem uma linha, que é representada pelo cântico entoado pelo dirigente da sessão e que precede sua visita a terra. O canto é uníssono e acompanhado pelo maracá. A linha resume a ação sobrenatural, as excelências do poder e a sua especialidade técnica. Com fisionomia própria, gestos, voz, manias, predileções, cada mestre narra as suas aventuras, conta o seu nome e a sua vida. Ele possui a semente, o sinal de sua legitimidade e autenticidade, eficácia e poder sobrenatural. 

Além dos mestres, outra categoria de espírito é significativa, o caboclo, ao qual se atribui identificação indígena e conhecimento de ervas e raízes. São muitas as entidades espirituais cultuadas no universo da jurema, entre elas: Mestre Carlos, Mestre Seu Zé Pilintra, Manoel Cadete, Mestra Faustina, Mestre Germano, Mestra Luziara, Mestra Maria do Acais, Mestre Malunguinho, Mestre Pilão, Negro Gerson, Cabocla Jurema, Caboclinho da Jurema, Caboclo Pedra Preta, Índio Pena Branca, Japiassu, Rei Canindé, Rei de Urubá, Rei Salomão. 

A prática da jurema continua vivenciando processos de reelaborações, adquirindo outros elementos simbólicos, como na fase atual da umbandização do culto, o que significa, nessa dinâmica, a sua permanência enquanto expressão de grupos sociais subalternos. Mais que isso, no plano ritualístico significa resistência aos modelos de opressão socioeconômica, contribuindo em última instância para a manutenção de um referencial étnico e identitário, sejam nas comunidades indígenas ou nas religiões afro-brasileiras. 


(Fragmentos do texto publicado na Revista História Viva, vol. 6 – Cultos Afro. São Paulo: Ediouro, 2007).

COLETÂNEA O CANDOMBLÉ - O SIGNIFICADO DA PALAVRA ASÉ



A palavra Axé é de origem yorubá e é muito usada nas casas de Candomblé. 

Asè significa "força, poder", mas também é empregada para sacramentar certas frases ditas entre o povo de santo, como por exemplo: - "Eu estou muito bem." Outro responde: - "Asè!". Esse "Asè" ai dito equivaleria ao "Amém" do catolicismo (Que Deus permita). 

Mas, o Asè ainda pode significar a própria casa de Candomblé em toda a sua plenitude. Daí uma ìyálòrìsá também ser chamada de Yalaxê (Ìyálasè), ou seja, "Mãe do Asè", ou a pessoa responsável pelo zelo do Asè ou força da casa de Òrìsá. 

Asè também pode significar "Vida". E tudo que tem vida tem origem. Chamar a vida é chamar o Asè e as origens. Os òrìsás são Asè, os òrìsás são vida. Agora, o que seria contra-asè?? O contra-asè são todas as estruturas de opressão e morte que destroem a vida das comunidades. O contra-asè ainda pode ser todas as kizilas e ewós dentro de uma casa de òrísá e também certos tabus que cercam o omo-òrìsá. 

Na tradição dos Òrìsás, Asè também pode significar a "força das águas, do fogo, da terra, do ar, das árvores, das pedras", enfim de tudo que tem vida. Pois, o Candomblé é um culto de celebração à vida e a toda a força que dela advém ou seja, o próprio culto, é o próprio Asé.