segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

COLETÂNEA OXUM, NOS CAMINHOS INICIÁTICOS - A OBRIGAÇÃO DE SETE ANOS


Motumbá meus (minhas) irmãos (ãs) do BLOG OLHOS DE OXALÁ

Muito se tem falado sobre a questão referente à obrigação dos Sete Anos, onde muitos por ai se gabam pelo fato de já terem completado ou não seus Sete Anos de Santo. E que podem assumir seu papel de SACERDOTE dentro da RELIGIOSIDADE. Mas eu mesmo sou o primeiro a perguntar: Serão de fato, todos chamados ao SACERDÓCIO? Como sou possuidor desta dúvida nada melhor que membro da nação ketu, e obediente aos ensinamentos vindo da CASA DE OXUMARÊ, nada melhor que compartilhar o que de fato aprendemos e que muitas vezes não estamos vendo se por em prática. 

Na última década houve um exacerbado aumento de Sacerdotes no Candomblé, sobretudo, aqueles que se tornaram Ìyálòrìsàs/Babalòrìsàs, imediatamente após terem concluído sua obrigação de sete anos. Mas será que somente a obrigação de sete anos outorga a um iniciado o direito ao sacerdócio? A resposta é não, vejamos por que. 

Criou-se nos últimos tempos, o indevido paradigma de que ao completar a obrigação de sete anos, o iniciado poderá instaurar o exercício do sacerdócio. Fato é que o sacerdote não nasce quando do término da sua obrigação de sete anos, mas muito antes, quando do seu nascimento. 

Na rica e bela cultura dos Òrìsàs, acreditamos que trazemos para o Aye (terra), a missão de nossas vidas acordada ainda no Orùn (céu). Em linhas gerais, isso quer dizer que a pessoa traz a missão de se tornar um sacerdote já no seu nascimento, isso está cravado irreversivelmente no seu destino, eles são os Omo Bibi (os bem nascidos)

Dessa forma, as pessoas que são “consagradas sacerdotes”, somente por terem completado o ciclo de sete anos, mas que não traz impresso no seu destino essa missão, poderá causar sério prejuízo a si mesmo e, principalmente aos seus seguidores. 

Um Sacerdote de Òrìsà, além de obviamente zelar pela Divindade, zela pelos filhos dessas Divindades, ou seja, o sacerdote cuida de pessoas. É muito importante destacar esse ponto: “O Sacerdote cuida de Òrìsàs, de Pessoas. Ele cuida de Cabeças”. Nesse sentido, vale salientar que a obrigação de sete anos é um passo muito importante na vida de qualquer Omo Òrìsà e condição sine qua non para um futuro sacerdote, mas não é a obrigação de sete anos que tornará um Omo Òrìsà em sacerdote. Isso deve ser claro a todos. 

Mas se não é a obrigação de sete anos que outorga o sacerdócio a um iniciado o que é então? Como dito acima, isso está impresso na memória ancestral daquele indivíduo, ele traz consigo essa missão do Orùn, que será revelada por meio do oráculo ou por voz pessoal do Òrìsà. Em uma primeira leitura, isso pode parecer utópico, no entanto, vamos lembrar a consagração sacerdotal de alguns dos mais importantes nomes do Candomblé. 

A reverenciada Ìyálòrìsà do Opo Afonjá, Mãe Senhora de Òsun, recebera a navalha que fora de sua avó Ìyá Oba Tosí, ainda na sua iniciação, sendo que sua Ìyálòrìsà Mãe Aninha, anteviu que ela seria uma sacerdotisa. A querida Ìyálòrìsà do Gantois, Mãe Menininha, foi consagrada Ìyálòrìsà pelos Deuses, que a escolheram e a sentaram no trono do Ile Iya Omi Ase Iyamase, sem a interferência humana. Na nossa casa, o Terreiro de Òsùmàrè, nosso amado Pai Pecê, foi indicado como futuro Babalòrìsà logo no seu nascimento, sendo carregado no barracão pelo Òrìsà Ògún de sua Avó, a inesquecível Mãe Simplícia. 

Não queremos em momento algum, dizer que a consagração dos sacerdotes deve ocorrer nos parâmetros mencionados, mas queremos sim dizer que é necessária uma consulta muito acurada ao jogo de búzios, questionando aos Òrìsàs se aquela pessoa realmente deverá ser consagrada sacerdote. É preciso saber se aquela pessoa realmente foi escolhida pelos Òrìsàs para ser um Babalòrìsà ou Ìyalòrìsà, isso é algo muito sério. 

Aqui em Salvador, por exemplo, há muitos Egbon (Omo Òrìsà com suas obrigações de 7 anos completadas, mas não consagrados sacerdotes). 

Esses Egbon, antiguíssimos e de conhecimento requintado da Religião dos Òrìsàs não se tornaram Babalòrìsàs/Ìyálòrìsàs por um único motivo, a saber: Não carregam nos seus destinos essa missão. Esses antigos são felizes por serem Egbon, são felizes por zelar pelos Òrìsàs na casa onde foram iniciados. São felizes por serem consultados pelos mais novos, sobre as histórias do povo antigo. São felizes por dizer: “Eu sou egbon da Casa A ou B”. 

Quando questionados por muitos a razão de não serem Babalòrìsàs/Ìyálòrìsàs, eles imediatamente respondem: “Oh meu filho, eu não nasci com essa missão não, minha missão é ajudar a casa onde eu me iniciei”. Alguns inconformados reiteram: “Mas com tanto saber, você tinha que ser sacerdote”. Esses antigos Egbon, por sua vez, no elevado grau de sabedoria, acumulada ao longo de anos, finalizam a conversa dizendo: “Oh meu filho, saber é o de menos, é preciso nascer para ser”

Que Òsùmàrè Arákà esteja sempre olhando e abençoando todos!!! Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó

COLETÂNEA OXUM, NO CAMINHO INICIÁTICO - OS CAÇADORES DE CABEÇA


Os Caçadores de Cabeças 

Hoje, na incessante busca pelo falso prestígio, muitas pessoas ditas Sacerdotes, não se furtam em “caçar cabeças” para poder ostentar uma grandiosa roda de Iyawos/Egbon/Ògáns, nem que para isso, tenham que ignorar a Ética e Moral que deveriam existir entre casas e, sobretudo, entre Sacerdotes. 

Mas muitos podem dizer: Um Sacerdote “caçar a cabeça” de alguém? Não são os filhos “rebeldes” que buscam outro terreiro? 

Em verdade, as duas situações ocorrem, cremos que a primeira com maior incidência. Na primeira postagem da série, falamos da ética e solidariedade que deve existir quando um confrade religioso falece, no entanto, é nesse momento que muitos falsos sacerdotes se aproveitam para “caçar a cabeça” de um Omo Òrìsà. Infelizmente, há “sacerdotes” que mesmo no velório, iniciam as investidas com os filhos de santo do falecido. Por vezes, com uma conversa aparentemente confortadora, mas que deixa aquela pessoa em dúvidas. Vejamos: 

“olha, a sua Ìyálòrìsà faleceu, mas pode contar comigo, afinal será que a pessoa que assumir tem o conhecimento necessário?”

“meu filho, eu sei da sua dor, mas você precisa logo lavar a sua cabeça, esse é o meu cartão, não evite em me procurar”

“eu lamento a sua perda, fico mais triste ainda porque acho que sua casa não terá continuidade, mas a minha casa está de portas abertas para recebê-lo”

Talvez para muitos, isso pode parecer surreal, no entanto, ocorre com freqüência, mostrando que muitos deixam a ética de lado, para angariar novos rebentos. 

Algo que também fere de forma contundente as convenções éticas do Candomblé está relacionado ao oráculo tendencioso e desrespeitoso. Os falsos sacerdotes, para conseguir uma nova cabeça, geralmente proferem em seu jogo: 

“Olha, você não é do Òrìsà que você foi iniciado, mas não se preocupe porque eu vou colocar o santo correto na sua cabeça e você, a partir de agora, será desse santo. A pessoa que te iniciou não sabe nada de Candomblé, ele é maluco, ainda bem que você me encontrou”

Nesses casos, nobres leitores, onde está a Ética Moral e Religiosa desse dito “Sacerdote/Sacerdotisa”

Não podemos tapar o sol com a peneira e dar costas às feituras erradas e mesmo indevidas que existem. Incorretas quando de fato uma pessoa é iniciada para uma Divindade que não seja a sua e, indevida, quando simplesmente uma pessoa foi iniciada sem ser esse o seu Destino, sendo que há pessoas que não devem ser iniciadas. 

Aqui em Salvador, há um respeito muito grande entre os Terreiros. Muitos filhos de santo de uma casa nem tentam buscar o jogo de outro terreiro, pois sabem que, na maioria das vezes terão como resposta: 

“Você não é da casa de fulano? Olha, ele é meu amigo, gosto muito do seu Pai, vá procurar ele, que certamente ele vai te ajudar”. Isso se chama Ética. 

Mas há situações que o Sacerdote sabe que aquela pessoa, verdadeiramente “caiu em mãos erradas” e abre o jogo. Nesses casos, o jogo de búzios revelando que aquela pessoa já iniciada é regida por outra Divindade, o Sacerdote deve sim ser verdadeiro com a pessoa. Deve explicar que a Divindade para qual ele fora iniciado, não é em verdade o regente do seu Orì. No entanto, deve elucidar que, santo feito não se muda. Deve esclarecer que há obrigações que podem ser realizadas, de modo que o verdadeiro regente do Orì da pessoa seja cultuado, mas que o Òrìsà para o qual ele foi iniciado não pode ser esquecido e, principalmente, deve ter a convicção plena de suas afirmações. 

Entretanto, o que mais vemos é o oposto. É justamente um Sacerdote ignorar tudo o que foi feito em uma pessoa para fazer valer a sua verdade/vontade, mostrando que tudo pode e que está acima de tudo e de todos, mesmo dos nossos Deuses, os Òrìsàs. 

Mas aqui, cabe uma reflexão especial: Onde vai parar a Divindade que ao longo de anos foi cultuada na cabeça daquela pessoa? A pessoa sempre foi incorporada por uma Divindade e, de uma hora para outra, é incorporada por outra Divindade e a Divindade do passado é nada mais que passado? 

Na terceira postagem da série, vamos falar sobre isso e sobre os Òrìsàs da Moda! Pessoas que esquecem a Divindade que cultuaram ao longo da Vida, para ser do “Òrìsà da moda”

Que nosso Pai Òsùmàrè Àráká cubra de bênçãos cada pessoa que, verdadeiramente, está voltada para a religião dos Òrìsàs. 

Ilé Òsùmàrè Arákà Asè Ògòdó

COLETÂNEA OXUM, NOS CAMINHOS INICIÁTICOS - OS ABIASÉS


"Os Àbiasé's e Seus Mistérios!" 

Olá, Bom dia! Eu sou Kiil ty òsún, e sou uns dos administradores da página Candomblé Brasil. 

Hoje venho lhes dizer um pouco mais sobre os àbiasé's, e eu sou àbiasé de acordo com os meus conhecimentos: Àbiasé é um termo usado pelos Yorubás para designar seres que já nascem com axé: Àbi= Nascer; Àsé= Energia mágica dos orixás (axé), ou seja são nada mais, nada menos que seres que já nascem com o Asé do Orisá plantado em seus Òrís (cabeças). 

*Mas como eles nascem com o axé dos orixás plantados neles, sem iniciar o orixá? 

Simples! Suponhamos que uma mãe recolha para dar obrigação (iniciar-se), e sem ela saber esteja grávida, de um dia , dois meses tanto faz, e ela se inicia no Orixá, e depois de sua iniciação ou até mesmo durante ela, descubra que esta gravida de um feto, seja ele masculino, ou feminino, este será àbiasé de acordo com as leis do orixá! 

Só que só serão Àbiasé aquelas, que a mãe não sabia estar grávida, por tanto não se existe Àbiasé de propósito, ou "combinado"

* Eles terão uma vida de "Orixá" normal? 

Sim, eles serão Ìyáwós, Egbomes, Lessíorisás, Bábá/Ìyálorisás. Terão sim que dar obrigação de 1 ano, 3 anos, 5 anos, 7 anos, 14 anos e 21 anos!. Só mudando que nunca, em nenhuma hipótese se poderá raspar o àbisé. 

* O àbisé terá vida longa, ou morrerá cedo? 

Os àbiasé's são muito confundidos com os àbikús, que são outra qualidade de seres que nascem dentro do culto. Sim o àbiasé terá vida normalmente! 

Bábá Ègbé Kiil ty Òsún

COLETÂNEA OXUM, NOS PROCESSOS INICIÁTICOS - ABIKU, POR PIERRE VERGER

Pierre Verger, através da sua pesquisa e coragem, cujo legado será eterno.


Se uma mulher, em país yorubá dá à luz uma série de crianças natimortas ou mortas em baixa idade, a tradição reza que não se trata da vinda ao mundo de várias crianças diferentes, mas de diversas aparições do mesmo ser (para eles, maléfico) chamado àbíkú (nascer-morrer) que se julga vir ao mundo por um breve momento, para voltar ao país dos mortos, órun (o céu), várias vezes. 

Ele passa assim seu tempo a ir e voltar do céu para o mundo sem jamais permanecer aqui por muito tempo, para grande desespero de seus pais, desejos de ter os filhos vivos. Essa crença se encontra entre os Akan, onde a mãe é chamada awomawu (ela bota os filhos no mundo para a morte). Os ibo chamam os abikú de ogbanje, os hauças de danwabi e os fanti, kossamah. 

Encontramos informações a respeito dos abikú em oito itans (histórias) de ifá, sistema de adivinhação dos yorubá, classificados nos 256 odu (sinais de ifá). Essas histórias mostram que os abikú formam sociedades no egbá órun (céu), presididas por iyàjansà (a mãe-se-bate-e-corre) para os meninos é olókó (chefe da reunião) para as meninas, mas é Aláwaiyé (Rei de Awaiyé) que as levou ao mundo pela 1ª vez na sua cidade de Awayié. Lá se encontra a floresta sagrada dos abikú, aonde os pais de abikú vão fazer oferendas para que eles fiquem no mundo. 

Quando eles vem do céu para a terra, os abikú passam os limites do céu diante do guardião da porta, oníbodé órun , seus companheiros vão com ele até o local onde eles se dizem até logo. Os que partem declaram o tempo que vão ficar no mundo e o que farão. Se prometem a seus companheiros que não ficarão ausentes, essas, crianças apesar de todo os esforços de seus pais, retornarão, para encontrar seus amigos no céu. 

Os abikú podem ficar no mundo por períodos mais ou menos longos. Um abikú menina chamada "A-morte-os-puniu" declara diante de oníbodé órun que nada do que os seus pais façam será capaz de retê-la no mundo, nem presentes nem dinheiro, nem roupas que lhes ofereçam, nem todas as cosias que eles gostariam de fazer por ela atrairiam os seus olhares nem lhe agradariam. 

Um abikú menino, chamado ilere, diz que recusará todo alimento e todas as coisas que lhe queiram dar no mundo. Ele aceitará tudo isto no céu. 

Quando Aláwaiyé levou duzentos e oitenta abikú ao mundo pela primeira vez, cada um deles tinha declarado, ao passar a barreira do céu, o tempo que iria ficar no mundo. Um deles se propunha a voltar ao céu assim que tivesse visto sua mãe; um outro, iria esperar até o dia em que seus pais decidissem que ele casasse; um outro, que retornaria ao céu, quando seus pais concebessem um novo filho, um ainda não esperaria mais do que o dia em que começasse a andar. 

Outros prometem à iyàjanjasà, que está chefiando a sua sociedade no céu, respectivamente, ficar no mundo sete dias, ou até o momento em que começasse a andar ou quando ele começasse a se arrastar pelo chão, ou quando começasse a ter dentes ou ficar em pé. 

Nossas histórias de ifá nos dizem que oferendas feitas com conhecimento de causa são capazes de reter no mundo esses abikú e de lhes fazer esquecer suas promessas de volta, rompendo assim o ciclo de suas idas e vindas constantes entre o céu e a terra, porque, uma vez que o tempo marcado para a volta já tenha passado, seus companheiros se arriscam a perder o poder sobre eles. 

É assim que nessas quatro histórias encontramos oferendas que comportam um tronco de bananeira acompanhado de diversas outras coisas. Um só dos casos narrados, o terceiro, explica a razão dessas oferendas: 

"Um caçador que estava à espreita, no cruzamento dos caminhos dos abikú, escutou quais eram as promessas feitas por três abikú quanto à época do seu retorno ao céu." 

"Um deles promete que deixará o mundo assim, que o fogo utilizado por sua mãe, para preparar sua papa de legumes, se apague por falta de combustível. O segundo esperará que o pano que sua mãe utilizar, para carregá-lo nas costas se rasgue. A terceira esperará, para morrer, o dia em que seus pais lhe digam que é tempo de ele se casar e ir morar com seu esposo." 

"O caçador vai visitar as três mães no momento em que elas estão dando à luz a seus filhos abikú e aconselha à primeira que não deixe se queimar inteiramente a lenha sob o pote que cozinha os legumes que ela prepara para seu filho; à segunda que não deixe se rasgar o pano que ela usar para carregar seu filho nas costas, que utilize um pano de qualidade diferente; ele recomenda, enfim à terceira, de não especificar, quando chegar a hora, qual será o dia em que sua filha deverá ir para a casa do seu marido." 

As três mães vão, então consultar a sorte, ifá, que lhes recomenda que façam respectivamente as oferendas de um tronco de bananeira, de uma cabra e de um galo, impedindo, por meio deste subterfúgio, que os três abikú possam manter seu compromisso. Porque, se a primeira instala um tronco de bananeira no fogo, destinado a cozinhar a papa do seu filho, antes que ele se apague, o tronco de bananeira, cheio de seiva e esponjoso, não pode queimar, e o abikú, vendo uma acha de lenha não consumido pelo fogo, diz que o momento da sua partida ainda não é chegado. 

A pele de cabra oferecida pela Segunda mãe serve para reforçar o pano que ela usa para levar seu filho nas costas; a criança abikú não vai achar nunca que esse pano se rasgou e não vai poder manter sua promessa. Não se sabe bem o porque do oferecimento de um galo, mas a história conta que quando chegou a hora de dizer à filha já uma moça, que ela deveria ir para casa do seu marido, os pais não lhe disseram nada e a enviaram bruscamente para a casa dele. 

Nossos três abikú não podem mais manter a promessa que fizeram, porque as circunstâncias que devem anunciar sua partida não se realizaram tais como eles tinham previsto na sua declaração diante de oníbodé órun. Estes três abikú não vão mais morrer. Eles seguiram um outro caminho. 

A história ilustra bem o mecanismo das oferendas e de sua função. Não é o seu lado anedolíco (de lenda) que nos interessa aqui, mas a tentativa de demonstração de que em país yorubá, a sorte (destino) pode ser modificada, numa certa medida, quando certos segredos são conhecidos. Entre as oferendas que os retêm aqui, na terra, figuram, em primeiro plano, as plantas litúrgicas. Cinco delas são citadas nestas histórias: 

- Abíríkolo (crotalaria lachnophera, papilolionacaae) 

- Agídímagbayin (não identificada) 

- Ídí (terminalia ivorensis, combretacae) 

- Ijá àgborin (não identificada) 

- Lara pupa (ricinus communis - mamona vermelha) 

Ainda mais duas plantas são frequentemente utilizadas para reter os abikú e que não figuram nessas histórias: 

- Olobutoje ( jatropha curcas, euphorbiaceae) 

- Òpá eméré ( waltheria americana, sterculiaceae). 

A oferta dessas folhas constitui uma espécie de mensagem e é acompanhada por ofó (encantamentos). 

Em país yorubá, os pais, para proteger seus filhos abikú e tentar retê-los no mundo, podem se dedicar a certas práticas, tais como fazer pequenas incisões nas juntas da criança e aí esfregar atin (um pó preto feito com ossum, favas e folhas litúrgicas para esse fim) ou ainda ligar à cintura da criança um ondè, talismã feito desse mesmo pó negro, contido num saquinho de couro. 

A ação protetora buscada nas folhas, expressa nas fórmulas de encantamento, é introduzida no corpo da criança por pequenas incisões e fricções, e a parte do pó preto, contida no saquinho do ondé, representa uma mensagem não verbal, uma espécie de apoio material e permanente da mensagem dirigida pelos elementos protetores contra os elementos hostis, sendo essa forma de expressão menos efêmera do que a palavra. 

Em uma outra história, são feitas alusões aos xaorôs, anéis providos de guizos, usados nos tornozelos pelas crianças abikú , para afastar os companheiros que tentam vir buscá-los no mundo e lembrar-lhes suas promessas. De fato seus companheiros não aceitam assim tão facilmente a falta de palavra dos abikú, retidos no mundo pelas oferendas, encantamentos e talismãs preparados pelos pais, de acordo com o conselho dos babalaôs. Nem sempre essas precauções e oferendas são suficientes para reter as crianças abikú sobre a terra. Iyájanjàsa é muitas vezes mais forte. Ela não deixa agir o que as pessoas fazem para os reter e porá tudo a perder o que as pessoas tiverem preparado. Contra os abikú não há remédios. 

Yiájanjàsá os atrairá à força para o céu. Os corpos dos abikú que morrem assim, são frequentemente mutilados. A fim de que, dizem, eles percam seus atrativos e seus companheiros no céu não queiram brincar com eles sobretudo para que o espírito do abikú, maltratado deste modo, não deseje mais vir ao mundo. 

Essas criança abikú recebem no seu nascimento, nomes particulares. Alguns desses nomes são acompanhados de saudações tradicionais. Eles podem ser classificados: quer nomes que estabeleçam sua condição de abikú; quer nomes que lhes aconselham ou lhe suplicam que permaneçam no mundo; quer em indicações de que as condições para que o abikú volte não são favoráveis; quer em promessas de bom tratamento, caso eles fiquem no mundo. A frequência com que se encontra, em país yorubá, esses nomes em adultos ou velhinhos que gozam de boa saúde, mostra que muitos abikú ficam no mundo graças, pensam as almas piedosas, a todas essas precauções, à ação de Òrúnmìlà, e à intervenção dos babalaôs. 

ALGUNS NOMES DADOS AOS ABIKÚ 

Aiyédùn - a vida é doce 

Aiyélagbe - Nós ficamos no mundo 

Akúji - O que está morto, desperta 

Bánjókó - Senta-se comigo 

Dúrójaiyé - Fica para gozar a vida 

Dúróoríìke - Fica, tu serás mimada 

Èbèlokú - Suplica para que fique 

Ilètán - A terra acabou (não há mais terra para enterra-lo) 

Kòjékú - Não consinta em morrer 

Kòkúmó - não morra mais 

Kúmápáyìí - A morte não leva este daqui 

Omotúndé - A criança voltou 

Tìjúikú - Envergonhado da morte (não deixa a morte te matar)

PALAVRAS DE PEDRO MANUEL T'OGUM

Motumbá meus (minhas) amados (as) irmãos (ãs) do BLOG OLHOS DE OXALÁ. Bom dia!


Motivado pelas postagens deste final de semana, onde busquei oferecer a todos juntamente com nossa EQUIPE OLHOS DE OXALÁ, fatos e aprendizados sobre a caminhada de OXUM, em todo o processo de evolução iniciática na realidade do CANDOMBLÉ. Mas deixo claro que vamos sim ainda abordar sobre esta mesma realidade também atingindo a todos que praticam de forma real, concreta e verdadeira a nossa querida UMBANDA SAGRADA.

Mas tudo ao seu devido tempo e espaço. 

Quando a elaboração de um texto esta em sintonia entre os irmãos, não se precisa muito para que tudo e todos conspire numa mesma direção. Já que estamos falando de toda a caminhada digamos assim do processo de ABIÃN, passando a ser YAWÔ. Atingindo, após os anos corretos, o estágio de EBOMI (EGBOMI), em toda a caminhada espíritual do CANDOMBLÉ.

E são realidades que mesmo sendo de ORIXÁS diferentes, OXUM, se faz presente na vida de todos que passam por estes passos. Pois todos passam pelo RONKÓ (QUARTO DE SANTO) em sua iniciação. Como todos passam novamente por ele, também em suas OBRIGAÇÕES. E bem sabemos que a "Senhora do Ronkó" é sem dúvida alguma, OXUM, pois ali é representado o seu útero.

Mas tudo que se faz deve ser levado em conta a caminhada. Pois a linha de pensamento e´de fato a mesma e como vimos pelas palavras de BABA EDSON DE OXUM, que nos presenteou com sua postagem que aborda os temas da diferença entre ABIKÚ E ABIASÉS, duas realidades que hoje em dia. Me desculpe de fato a todos virou moda entre os membros da nossa RELIGIOSIDADE.

Desta forma, como este BLOG foi criado para levar até você, o que for de fato real e concreto sobre nossa fé. Cada postagem serve justamente para ficarmos de olhos bem abertos, e ficarmos atentos para não sermos enganados com certas colocações que nos apresentam e que por inocência ou falta de conhecimento venham a ser tidas como profundas conhecedoras de fundamentos e que no bem da verdade. Só para nos enganar.

Afinal, bem temos de saber, como diz o velho ditado: "Nem tudo que brilha é ouro". E isto, é de fato verdade. Mas nunca deixamos de dizer, conscientizar e alertar. Que tudo que postamos aqui, é de forma básica da básica. Pois bem sabemos que os melhores e únicos ensinos e aprofundamentos sobre a RELIGIOSIDADE, deve vir de nossos BABALORIXÁS E YALORIXÁS.

Agradeço de coração a todos que tem acompanhado nosso BLOG OLHOS DE OXALÁ, como pedi a postagem de nossas mais novas LEMBRANCINHAS DE ORIXÁS, pois muitos podem estar se preparando para se INICIAR outros ainda para dar suas OBRIGAÇÕES. E sempre temos ainda as devidas FESTAS DOS ORIXÁS no percorrer de todo o ano.

Então não deixe de participar, visitar, acompanhar pelo nosso BLOG, pois ainda temos muito a lhes oferecer. Hoje estaremos abordando como disse acima, a continuidade sobre ABIASÉS E ABIKÚS, mas logo adentraremos na questão EGBOMIS. Partindo então para as CABOCLAS DE OXUM. Um assunto muito interessante de se saber também.

Um grande abraço a todos. Que Ogum e Oxaguiãn, abençõem a todos nesta nova semana que se inicia.

domingo, 20 de janeiro de 2013

OLHOS DE OXALÁ - ENTIDADES, CATIÇOS E EKEDJIS

As ENTIDADES, ou como muitos as chamam, OS CATIÇOS, também se fazem presentes. Assim como também nossa primeira LEMBRANÇA PARA EDEDJIS. Esperamos que gostem:








OLHOS DE OXALÁ - FAMÍLIA DO FOGO

Mas não paramos por aqui, de todos que já compartilhamos vocês acham que iriamos nos esqueçer da FAMÍLIA DO FOGO? Claro que não! 

Com isto, aqui apresentamos: XANGÔ, IANSÃ e OBÁ. Lembrando a todos que as LEMBRANCINHAS são feitas de acordo com suas devidas QUALIDADES. Ou seja, mesmo as que já postamos anteriormente, ainda faltam muitas e tudo isso vai ocorrer de acordo com o seu devido tempo. Mas em breve, já anuncio ainda vem muito mais por ai. 

AGUARDEM!!!






OLHOS DE OXALÁ - LEMBRANÇAS DE OGUM E OXÓSSI

Os grandes senhores dos caminhos ainda representados por OGUM, como os grandes senhores da fartura e da caça, representados por OXÓSSI, se fazem presentes também:







OLHOS DE OXALÁ - LEMBRANÇAS PARA OLUBAJÉ

Como não poderia deixar de ser é fato, que nas realidades de muitas casas, a festividade de OLUBAJÉ é de suma importância dentro de toda a programação de um ILÊ ASÉ. Desta forma, não poderíamos deixar de nos lembrar do POVO DA PALHA, que é de fato uma grande benção apreciá-los.







OLHOS DE OXALÁ - LEMBRANÇAS PARA AS ÁGUAS DE OXALÁ

Queridos amigos VISITANTES, SEGUIDORES, PARTICIPANTES, CO-AUTORES, bem sabemos que em muitas casas já estão realizando as festividades voltadas às ÁGUAS DE OXALÁ

Em muitas destas festividades, muitos irmãos podem estar fazendo não somente suas OBRIGAÇÕES, bem como muitos, YAWÔS, podem estar nascendo, pelas mãos destes lindos ORIXÁS: OXALUFÃN, OXAGUIÃN, YEMANJÁ. Que sempre se fazem presentes nestas festividades. 

Desta forma, partilhamos alguns de nossos exemplares voltados a esta realidade. Esperamos que gostem:












OLHOS DE OXALÁ - EVENTOS E DIVULGAÇÃO

Motumbá meus (minhas) irmãos (ãs) de nosso BLOG OLHOS DE OXALÁ

Hoje, estamos logo pela manhã dando uma atualizada em nossas PÁGINA NOSSOS PRODUTOS e a  PÁGINA LEMBRANCINHA DOS ORIXÁS. A fim de partilhar com todos os trabalhos que realizamos, os quais são de fato voltados não somente a fornecer condições de fazer que todos os que lhe forem convidados para suas festividades, sejam elas: INICIAÇÃO e OBRIGAÇÕES em geral, possam ter consigo, uma LEMBRANÇA bonita de uma data especial em suas vidas.

Mas não podemos deixar de atualizar agora diariamente os EVENTOS que também estão acontecendo não somente em SÃO PAULO, bem como no BRASIL inteiro. Facilitando assim, uma interação geral de nosso povo seja do CANDOMBLÉ como de nossa UMBANDA SAGRADA. A fim de nestes eventos podermos não meramente reverenciar nossos ORIXÁS e ENTIDADES, mas também nos unirmos cada vez mais por nossa RELIGIOSIDADE. Seja o ramo espiritual que for.

Desta forma, vejam abaixo os novos eventos que estarão acontecendo por estes  dias:







sábado, 19 de janeiro de 2013

COLETÂNEA OXUM, NOS CAMINHOS INICIÁTICOS - A DIFERENÇA ENTRE ABIKÚ E ABIAXÉ!!!!!

Motumbá meus (minhas) irmãos (ãs) do BLOG OLHOS DE OXALÁ

Aqui estamos mais uma vez, com grande alegria, compartilhar mais uma grande postagem exclarecedora sobre um assunto que de fato vem de acordo com a SEQÜÊNCIA de nossas atuais COLETÂNEAS.

De uns tempos para cá é crescente  o número de pessoas que se apresentam como ABIAXÉS (ABIASÉS). Bem como o número de pessoas que tem ouvido por vários BABALORIXÁS/YALORIXÁS, despreparados que todo mundo virou ABIKÚ. Mas o que de fato vem a ser isto? Qual a diferença de um para com o outro?

Através deste texto muito bem colocado entre as inúmeras postagens dentro do FACEBOOK, mas que nos chamou a atenção de tão perfeita colocação e explanação. Acompanhe conosco:


A diferença entre os Abikús e os Abiaxés 

No Brasil, há uma confusão muito grande entre os Abikús e os Abiaxés. 

Os Abikús são espíritos que, literalmente, "nascem para morrer", por terem feitos promessas de voltar ao plano espiritual ainda crianças, ou por terem se recusado à permanecer no plano dos vivos. Elas são consideradas pela ancestral cultura africana como pertences a uma legião de “demônios” que moram nas florestas ou em torno das árvores de Iroko: a gameleira branca,ou ainda figueira chorona. 

É sábio que cada um desse abikús quando nascem já trazem consigo o dia e a hora em que vão retornar para o “outro lado da vida” para companhia dos seus “amiguinhos” das florestas de Iroko. Geralmente esse tempo é determinado entre o nascimento e os 7 anos de vida. 

Assim as providencias são tomadas para que essas crianças permaneçam no mundo dos vivos. Fazendo esquecer as datas, e conseqüentemente seus “amiguinhos do outro lado”. Além de amuletos e magias feito nessas crianças, os quais vão desde símbolo, breves e patuás que são postos em suas pernas, braços e pulsos, pinturas destoantes são feitas em seu corpos de formam que transmitam sentimentos repulsivos para que assim os seus “antigos companheiros” do outro lado recusem uma nova ligação com “figuras deformadas” e os obriguem a ficar na vida. 

Já os Abiaxés são crianças cujo as mães entraram para a iniciação no Candomblé enquanto estavam gestantes. 

Os Abiaxés são as crianças nascidas “feitas de berço” e com missão espiritual. Os Abiaxés podem ou não refugar a missão espiritual na terra, retornando ao convívio de Olodumare, dependendo unicamente do teor de compreensão que obtiverem de seus pais, mestres, tutores, cônjuges e etc… 

Hipótese nº1 de ABIAXÉ – é oriundo de uma transmigração espiritual (morre em algum lugar, país,etc) e nasce na mesma hora ou horas depois em outro lugar e outro corpo. Carecendo apenas de um ritual de confirmação ou coroação do Ibá Orí (três adoxos e tudo mais), conforme o cargo espiritual designado por Ifá. 

É oferecido á Olodumaré pelos seus pais ou tutores e jamais conseguirá fugir de seu odú (predestinação), sob pena de refugar á missão terrestre (morrer), missão esta que geralmente é politica, missionária social ou espiritual. 

Hipótese nº 2 de ABIAXÉ – é “feito” (raspado) na barriga da mãe, quando está é recolhida para a “feitura” e está grávida. Aí a criança recebe todos os fundamentos que a mãe receber, independente da qualidade de Orixá, nascendo “feita” deste mesmo orixá e carecendo apenas da confirmação ou coroação, as quais seguem as mesmas ritualísticas do primeiro caso de abiaxé.

COLETÂNEA, OXUM NO PROCESSO INICIÁTICO - AFÙWÀPÉ


Afùwàpé, aquele que soube escolher o melhor Orí 

Recentemente, publicamos uma postagem, discorrendo sobre a importância singular de Orí em nossas vidas, mencionamos que ele é o primeiro a ser louvado. Hoje, vamos aprofundar um pouco mais sobre essa importante Divindade, pois acreditamos que esse tipo de conhecimento é fundamental para toda a população do Candomblé. 

Orí é a cabeça que norteia todos os seres-humanos e "Apéré" é seu suporte, por essa razão, sempre que louvamos Orí, evocamos também o seu suporte "Orí Apéré-oooooo!", bem como o Orí Inú (encéfalo) "Orí Inú-oooo!"

Acreditamos que "Àjàlá Mopin" é a Divindade à qual Olodúnmarè atribuiu a responsabilidade de "modelar" o Orí das pessoas. Muito embora Àjàlá seja habilidoso na "arte de moldar cabeças", por vezes ele comete erros e então surgem os "Orí Buruku", que são as "cabeças defeituosas"

Cremos que mesmo antes do nascimento, escolhemos nosso Orí, pedindo-lhe junto à Àjàlá Mopin. Essa "solicitação" é denominada "Àkúnlèyàn", nesse momento o indivíduo "acorda" a sua permanência no Àyé, dentre outros aspectos de sua vontade. Isto posto, Àjàlá Mopin dá a pessoa aquilo que os yorùbás chamam de "Akúnlègbà", que é na verdade uma espécie de "mola propulsora" para que os "desejos acordados" sejam realizados. 

Por fim, Àjàlá Mopin, concede "Àyànmò" que é a parte do destino que mesmo através da mediação dos Òrìsàs não será jamais alterada. Ou seja, "Àkúnlèyàn" e "Akúnlègbà" podem sofrer alterações ao longo da vida. Essas alterações são possibilitadas por meios de oferendas, as quais são vislumbradas através do oráculo ou pela "fala" dos Òrìsàs, entretanto, aquilo que fora determinado em "Àyànmò" jamais sofrerá mudanças. 

A afirmação de que nós mesmos escolhemos nosso Orí é fundamentada através de um Itán, publicado por Abimbola, o qual diz que Ifá foi consultado para "Orísèékú", "Orílèémèrè" e "Afùwàpé". Quando eles foram escolher seus respectivos Orí junto à Àjàlá Mopin, o grande moldador de cabeças, Ifá determinou que eles fizessem sacrifícios de modo que escolhessem um bom Orí para o seus destinos. 

Orísèékú e Orílèémèrè ignoraram a recomendação de Ifá e, somente Afùwàpé fez o que lhe fora designado. Como consequência, Afùwàpé teve muita sorte e prosperidade em sua vida, haja vista que, graças aos sacrifícios realizados, ele escolheu o "Orí certo" (Orí Réré). No entanto, Orísèékú e Orílèémèrè, que não seguiram a determinação de Ifá não tiveram a mesma sorte. 

Abaixo, transcrevemos uma variante do Itán de Ifá, respeitante a saga de Orísèékú, Orílèémèrè e Afùwàpé rumo à Terra. 

"Ifá foi consultado para Orísèékú, o filho de Ògún, para Orílèémèrè, o filho de Ìjá e para Afùwàpé, o filho de Òrúnmìlà, no dia que eles iam para a casa de Olódúnmarè escolher suas cabeças. Orísèékú, Orílèémèrè e Afùwàpé eram amigos, um dia eles se reuniram e decidiram que iriam para a Terra e lá, eles se estabeleceriam e seriam prósperos, sendo que, para eles, a Terra seria um lugar melhor do que o céu. 

Eles pediram conselho aos Àgbàlágbà (anciões), que disseram que antes deles viajar, eles deveriam ir até Àjàlá escolher suas cabeças. Eles foram advertidos assim: "quando vocês forem, vocês não devem virar à direita, e nem ir diretamente para a casa de Àjàlá, até mesmo se um de vocês ouvir a voz do pai, vocês não devem ir diretamente para a casa de Àjàlá". Orísèékú, Orílèémèrè e Afùwàpé, prometeram aos Àgbàlágbà que atenderiam as advertências. Depois de caminhar por muito tempo, eles encontraram Afabéré-Gúnyán ("aquele que bate inhames com uma agulha pequena")

Eles disseram: "Pai, nós o saudamos"! O pai respondeu: "obrigado"

Orísèékú, Orílèémèrè e Afùwàpé questionaram como chegar até a casa de Àjàlá. Afabéré-Gúnyán disse que eles tinham que terminar de bater o inhame dele primeiro, depois ele mostraria como chegar até lá. Afùwàpé levou a agulha dele e começou a bater os inhames com isto, durante três dias. Quando ele terminou de bater, Afabéré-Gúnyán disse que eles podiam ir, que depois de caminhar mais um pouco, eles deveriam virar à direita, onde encontrariam o Oníbodè (guardião). Eles deveriam perguntar ao Oníbodè como chegar até a casa de Àjàlá. 

Depois de caminharem por algum tempo, eles chegaram, Orísèékú, o filho de Ògún, ficou imóvel, ele ouviu a voz do pai dele, solicitando-o para guerra. Então, Orísèékú pegou suas armas para ajudar seu pai. Orílèémèrè e Afùwàpé o advertiram, dizendo que eles não deveriam ouvir nem mesmo aos seus pais, conforme orientação dos Àgbàlágbà. 

Eles então, continuaram sua viajem até a casa de Àjàlá. Após terem caminhado por um longo período, eles ouviram Òrúnmìlà, que golpeava o Opon Ifá com seu Iroke, fazendo um grande barulho. Afùwàpé, seu filho, ficou imóvel. Então, os outros dois companheiros exigiram que ele não parasse. 

Afùwàpé disse que ele não iria até ver o pai dele. Eles o fizeram lembrar da advertência, mas Afùwàpé, recusou abruptamente, insistindo que ele tinha que ver seu pai. Afùwàpé foi até Òrúnmìlà, enquanto Orísèékú e Orílèémèrè prosseguiram a viajem. Quando Òrúnmìlà viu Afùwàpé, ele lhe perguntou aonde ia. Afùwàpé disse que ele ia para a Terra. Òrúnmìlà, então, foi consultar o oráculo para o filho. O destino que se apresentou foi Ogbèyónú. 

O Oráculo disse: "Òrúnmìlà, seu filho vai fazer uma viagem para a Terra, para ele escolher uma cabeça boa, ele deverá fazer sacrifícios". O que ele deve sacrificar, questionou Òrúnmìlà. "Ele deve oferecer duas bolsas de sal e doze mil búzios". Òrúnmìlà ofereceu todos os materiais e o sacrifício foi realizado. As duas bolsas de sal e os doze mil búzios foram dados a Afùwàpé. Eles falaram que Afùwàpé procedesse na viagem. Quando Afùwàpé saiu da casa de Òrúnmìlà, ele nem não viu Orísèékú nem Orílèémèrè, eles já tinham ido embora. 

Quando Orísèékú e Orílèémèrè alcançaram o Oníbodè, perguntaram-lhe como chegar à casa de Àjàlá. O Oníbodè disse que a casa de Àjàlá era muito longe, senão fosse por isso, ele os levaria até lá. Eles ficaram com muita raiva e perguntaram para outras pessoas, até conseguirem chegar à casa de Àjàlá. 

Quando lá chegaram, eles não o encontraram e esperaram por dois dias, como Àjàlá não retornou, eles resolveram falar com as pessoas que moravam lá. Disseram que eles haviam vindo escolher suas cabeças, sendo que estavam indo para a Terra. As pessoas da casa mostram-lhes muitas cabeças disponíveis na "loja de Àjàlá". Quando Orísèékú entrou, ele escolheu uma cabeça feita recentemente que ainda não havia sido "levada ao forno"

Quando Orílèémèrè entrou, ele escolheu, sem perceber, uma cabeça defeituosa. Orísèékú e Orílèémèrè vestiram suas cabeças de barro e foram rumo à Terra. Restando poucos dias para chegarem, uma forte chuva caiu sobre Orísèékú e Orílèémèrè, essa chuva perdurou por muito tempo e as cabeças deles, começaram a se desfazer, ficando apenas um pequeno plano e assim eles chegaram. 

Na Terra, eles trabalharam muito, no entanto, eles perdiam tudo o que ganhavam e esse cenário se manteve por uns dez anos, sem qualquer sinal de melhora. Eles resolveram, então, consultar Ifá que através do oráculo disse que tudo que estava acontecendo, era em função das cabeças ruins que eles haviam escolhido e perguntou: "Quando vocês estavam vindo para Terra, vocês foram atingidos pela chuva?" Eles responderam: Sim, nós fomos! 

Ifá disse: "Quando vocês estavam vindo para Terra, vocês escolheram cabeças ruins! Vocês escolheram cabeças que ainda não haviam sido levadas ao forno. Vocês foram atingidos pela chuva e as cabeças ruins que vocês escolheram, ficaram danificadas, em pedaços, por isso, tudo o que vocês ganham, vocês perdem, sendo que tudo o que vocês conseguirem, será para restabelecer a forma de suas cabeças"... 

Afùwàpé também continuou sua viagem à Terra, depois de ter caminhado por algum tempo, ele chegou até o Oníbodè e lhe perguntou como fazer para chegar à casa de Àjàlá. 

O Oníbodè disse que lhe mostraria depois, primeiro, ele iria preparar sua comida. Assim, Afùwàpé se sentou e pacientemente ajudou o Oníbodè. Quando Afùwàpé estava ajudando acender o fogo, ele notou que o Oníbodè estava colocando cinzas na sopa. Ele disse: "você está colocando cinzas na sopa"

O Oníbodè disse que isso era o que ele sempre comeu. Afùwàpé colocou na sopa, um pouco do sal, que havia trazido consigo e pediu que o Oníbodè provasse aquilo. O Oníbodè ficou impressionado com o gosto e, implorou mais daquela iguaria à Afùwàpé, que concordou, dando-lhe as duas bolsas de sal. 

Quando eles terminaram de preparar a sopa, Oníbodè se levantou, conduzindo Afùwàpé até a casa de Àjàlá. Quando estavam chegando, eles ouviram alguém gritar. Oníbodè disse que aquele barulho vinha da casa de Àjàlá e que ele não estava em casa, sendo que aquele barulho era provocado por um credor à sua procura e, sempre que o credor aparecia, Àjàlá se escondia. 

O Oníbodè disse à Afùwàpé que se ele tivesse dinheiro, ele deveria ajudar Àjàlá a pagar suas dívidas. Quando Afùwàpé chegou à casa de Àjàlá, ele achou o credor gritando, relinchando como um cavalo. Afùwàpé indagou quanto Àjàlá lhe devia. 

O credor disse que eram doze mil búzios (nesse aspecto, cabe lembrar que àquela época, os búzios eram moedas correntes). Afùwàpé pegou os doze mil búzios, que havia trazido consigo, e pagou o credor de Àjàlá, quitando toda a sua dívida. Quando o credor foi embora, Àjàlá saltou do teto, onde havia se escondido e, cumprimentou Afùwàpé. Ele perguntou se Afùwàpé achou alguém na casa. 

Afùwàpé disse: "Sim, achei! Essa pessoa disse que você lhe devia doze mil búzios, então, eu paguei toda a sua dívida". Àjàlá, muito contente, agradeceu Afùwàpé e lhe perguntou o que ele vinha fazer em sua casa. Afùwàpé disse que ele tinha vindo escolher uma cabeça, pois estava à caminho da Terra. Àjàlá pediu-lhe que viesse depois de certo tempo. Passado o tempo pedido por Àjàlá, Afùwàpé retornou e foi escolher sua cabeça. Àjàlá lançou uma vara férrea em muitas cabeças e todas ficavam em pedaços. "Está vendo Afùwàpé, essas cabeças não são boas"! Após muitas cabeças em pedaços, Afùwàpé escolheu uma. Quando Àjàlá lançou a vara de ferro, a cabeça deu um salto, caiu no chão e ficou rodando sem se desfazer. Àjàlá disse que aquela sim era uma boa cabeça e deu à Afùwàpé, que a fixou, dirigindo-se rumo à Terra. 

Quando Afùwàpé estava chegando na Terra, uma forte chuva caiu sobre sua cabeça, a chuva era tão forte e intensa que Afùwàpé quase ficou surto, no entanto, sua cabeça permanecia firme, igual quando havia sido retirada da casa de Àjàlá. 

Ao chegar na Terra, Afùwàpé começou a comerciar, ele fez bastante lucro, ele construiu uma casa e enfeitou sua porta. Ele teve muitas esposas, ele teve muitos filhos. Depois de algum tempo, ele recebeu o honroso título de Orísanmí. Orísèékú, o filho de Ògún e Orílèémèrè, o filho de Ìjá, lamentaram-se à Afùwàpé. "Onde você escolheu sua cabeça? Porque não nos falou onde escolheria sua cabeça?". Afùwàpé, por sua vez, disse que eles haviam escolhido suas cabeças, todos em um mesmo lugar, o que os diferenciavam era, o destino". 

Que Òsùmàrè Arákà esteja sempre olhando e abençoando todos!!! Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó

COLETÂNEA OXUM, NO PROCESSO INICIÁTICO - ORI - PARTE II

Este texto foi nos encaminhado pelo BLOG O CANDOMBLÉ, por nossa amiga MANUELA.



Ori é o deus portador da individualidade de cada ser humano. Representa o mais íntimo de cada um, o inconsciente, o próprio sopro de vida em sua particularização para cada pessoa. Ori mora dentro das cabeças humanas, tornando cada um aquilo que é. 

Como ao morrer, a cabeça de uma pessoa não é separada para o enterro, Ori é conhecido como aquele que pode fazer a grande viagem sem retorno, pois os outros orixás, mesmo quando morrem seus filhos, são libertados da cabeça (Ori) e retornam ao Orun (céu, ou mundo exterior)

A cerimônia de equilíbrio do Ori dá-se o nome de Bori (bo = oferenda, ori = cabeça => dar oferenda para a cabeça, fortalece-la). Não se deve no entanto confundir Bori com Iniciação. O Bori pode ser feito em qualquer momento e não implica qualquer vínculo com o Orixá ou com a casa. 

Durante o processo iniciático a primeira entidade a ser equilibrada é justamente o Ori, a individualidade pessoal, para que a pessoa não se transforme num mero espelho do orixá. 

Um dos mitos sobre Ori diz que ele pode depois de enterrado voltar ao Orum, levado por Nanã ou Ewá. Diz este mito que um dia Ori percebeu que era o momento de nascer outra vez e foi falar com Olorum, o Universo, solicitando permissão para nascer na mesma família em que havia nascido antes. Olorum permitiu, com a condição de que apenas ele, Olorum, pudesse conhecer o dia de sua morte, sem que Ori pudesse opinar sobre esta questão e que o destino de Ori só pudesse ser mudado quando Ifá fosse consultado. 

Este orixá não tem características estéticas pois não incorpora. Apenas é cultuado juntamente com os orixás, possuindo um número no jogo de búzios onde "fala"

A quizila de Ori é a mentira.

COLETÂNEA, OXUM NO PROCESSO INICIÁTICO - O ORI

Motumbá meus (minhas) irmãos, acredito que muitos devem estar se questionando sobre o que a presença de OXUM, como apresentamos no Título da COLETÂNEA, em questão apresentada. Tem haver com os temas abordados. 

Bom, a resposta, de fato não poderia ser diferente. De fato, nestas postagens ela não esta diretamente sendo abordada, como já perceberam. Mas sua presença é de fato constante, pois jamais podemos esqueçer que além dela ser a SENHORA DO RONKÓ, ela é a SENHORA DA MATERNIDADE, DA FECUNDIDADE. Bem como, através de seu útero, todo e qualquer ORIXÁ nasce e vem nos agraciar com sua presença em nosso plano astral.

Então, assim percebemos que para um ABIÃN que se prepara para dar início a toda uma trajetória junto à sua INICIAÇÃO. Como todo o YAWÔ, obrigatoriamente deve passar por suas devidas obrigações. OXUM, se faz sempre presente, pois é aos seus cuidados que uma pessoa lhe é entregue para que a GRANDE jornada ESPIRITUAL aconteça.

BY ÌYÁ LIANE T' YEMANJÁ


Ori, o orísa que ele abençoe nossas vidas ! 

Que sempre possa ser louvado !

Asé ! Um xero ! 
Ìyá Liane Ty Yemonjá
Ori ô ! 

ORI O ORIXÁ PESSOAL 

Ori 

ORI MI O! 

SE RERE FUN MI! 

MEU ORI! 

SE ALEGRE COMIGO! 

Para termos idéia quanto a importância e precedência do ORI em relação aos demais ORISA, um Itan do ODU OTURA MEJI, ao contar a história de um ORI que se perdeu no caminho que o conduzia do ORUN para o AIYE, relata: “… OGUN chamou ORI e perguntou-lhe, “Você não sabe que você é o mais velho entre os ORISA? Que você é o líder dos ORISA?’…” . Sem receio podemos dizer, “ORI mi a ba bo ki a to bo ORISA”, ou seja, “Meu ORI, que tem que ser cultuado antes que o ORISA” e temos um oriki dedicado à ORI que nos fala que "Ko si ORISA ti da nigbe leyin ORI eni”, significando, “… Não existe um ORISA que apoie mais o homem do que o seu próprio ORI…”. 

Quando encontramos uma pessoa que, apesar de enfrentar na vida uma série de dificuldades relacionadas a ações negativas ou maldade de outras pessoas, continua encontrando recursos internos, força interior extraordinária, que lhe permitam a sobrevivência e, inclusive, muitas vezes, mantém resultados adequados de realização na vida , podemos dizer, “ENIYAN KO FE KI ERU FI ASO, ORI ENI NI SO NI”, ou seja, “as pessoas não querem que você sobreviva, mas o seu ORI trabalha para você”, trazendo, essa expressão, um indicador muito importante de que um ORI resistente e forte é capaz de cuidar do homem e garantir-lhe a sobrevivência social e as relações com a vida, apesar das dificuldades que ele enfrente. 

Esta é a razão pela qual o BORI, forma de louvação e fortalecimento do ORI utilizada em nossa religião, é utilizado muitas vezes, precedendo ou, até, substituindo um EBÓ. Isso se faz para que a pessoa encontre recursos internos adequados, esta força interior de que falamos, seja à adequação ou ajustamento de suas condições frente às situações enfrentadas, seja quanto ao fortalecimento de suas reservas de energia e consequente integração com suas fontes de vitalidade. 

ORI em yorubá tem muitos significados – o sentido literal é cabeça física, símbolo da cabeça interior (ORI INU). Espiritualmente, a cabeça como o ponto mais alto (ou superior) do corpo humano representa o ORI

Enquanto ORISA pessoal de cada ser humano, com certeza ele está mais interessado na realização e na felicidade de cada homem do que qualquer outro ORISA. Da mesma forma, mais do que qualquer um, ele conhece as necessidades de cada homem em sua caminhada pela vida e, nos acertos e desacertos de cada um, tem os recursos adequados e todos os indicadores que permitem a reorganização dos sistemas pessoais referentes a cada ser humano. Reforçando esta questão temos um oriki que nos diz 

“ORI lo nda eni 

Esi ondaye ORISA lo npa eni da 

O npa ORISA da 

ORISA lo pa nida 

Bi isu won sun 

Aye ma pa temi da 

Ki ORI mi ma se ORI 

Ki ORI mi ma gba abodi” 

TRADUÇÃO 

“ORI é o criador de todas as coisas 

ORI é que faz tudo acontecer, antes da vida começar 

É ORISA que pode mudar o homem 

Ninguém consegue mudar ORISA 

ORISA que muda a vida do homem como inhame assado 

AYE*, não mude o meu destino 

Para que o meu ORI não deixe que as pessoas me desrespeitem 

Que o meu ORI não me deixe ser desrespeitado por ninguém Meu ORI, não aceite o mal.”