quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

COLETÂNEA OXUM, NOS CAMINHOS DO YAWÔ - COMPORTAMENTO


Ìyàwó, Iyawô, yawô, Yao ou Iaô palavra de origem yoruba, é a denominação dos filhos-de-santo já iniciados na Feitura de santo, que ainda não completaram o período de 7 anos da iniciação. Só após a obrigação de 7 anos ele se tornará um Egbomi (irmão mais velho). Antes da iniciação são chamados de abíyàn ou abian

A pessoa passa a ser um Iaô após um período de vinte e um dias, recolhida no roncó (clausura), quarto específico e apropriado para se fazer iniciações e obrigações, e passar por todos os preceitos necessários para ser um iniciado. 

É durante os sete anos, que a pessoa vai aprender as rezas, as cantigas, os preceitos, os segredos só confiados aos iniciados do Candomblé. 

COMPORTAMENTO DO BOM YAWÔ 

1- Não retrucar a mãe de santo. Você por acaso retruca seus avós? 

2- Caso tenha algo para falar que não esteja concordando, discretamente peça um minuto da atenção da mãe de santo e exponha a situação civilizadamente, sem precisar que a torcida do Flamengo esteja assistindo. Dar um escândalo no meio do barracão não é postura de um filho de santo, e você ainda corre o risco de tomar um fora na frente de todo mundo. 

3- Quando tiver visita no barracão (egbomis, ekedes, ogãs, zeladores), seja em dia de festa ou em dia corriqueiro, é de bom-tom que os filhos se abaixem para dirigir a palavra à mãe de santo. Detalhe: Só atrapalhar a conversa caso seja EXTREMAMENTE necessário. Deve-se chegar junto à ela, mas não muito, e ficar abaixado esperando que ele pergunte o que deseja. Quando ele perguntar, comece sempre sua frase com “AGÔ”. “Agô, mais blá blá blá…”

4- Nunca, jamais, em tempo ou hipótese alguma, seja no seu barracão ou no barracão do alheio, deve-se sentar na mesma altura que sua mãe de santo. Ela já passou por vários sacrifícios para estar sentado confortavelmente ali. Você ainda está no meio do caminho. Portanto, pra que querer sentar aonde você não alcança? 

5- Yawo e abian não bebe nenhum líquido em copo de vidro dentro de seu barracão ou no barracão do alheio. Deve-se esperar o bom e velho copinho de plástico ou então a conhecida DILONGA, BAN ou CANEQUINHA DE ÁGHATA, como você preferir chamar. Copo de vidro só quem tem direito é egbomi, ekedi, ogan e zelador. 

6- Yawo e abian não come em prato de vidro ou louça. Apenas em pratinho de plástico ou ághata. Aliás, devemos lembrar que é de boa educação cada filho trazer seu devido pratinho de ághata e sua devida canequinha para seu uso pessoal no barracão. 

7- Terminou seu ajeum? Pegue seu pratinho e sua canequinha, vá para cozinha e lave. Não cai a mão e nem coça, sabia? Infelizmente ainda não possuímos uma empregada que possa cuidar da limpeza geral enquanto nós descansamos. 

8- Como dissemos no item anterior, não temos uma empregada para limpar tudo. Portanto, cada um deve se conscientizar e fazer a sua parte. Ficar protelando, esperando que algum irmão de santo se encha da bagunça e vá arrumar por você não tem cabimento. Cada um fazendo um pouco fica mais fácil e rápido. 

9- Resolveu visitar a mãe de santo? Que maravilha! Ela adorará sua visita, ainda mais se você vier com uma modesta colaboração para o ajeum, pois como é do conhecimento de todos, a mãe de santo não é rica e nem tem obrigação de alimentar todo mundo. Madre Teresa de Calcutá já morreu, e definitivamente, ela não vira na cabeça da mãe de santo. 

10- Ao chegar ao barracão, o procedimento correto é: a) Tomar seu banho e ir trocar de roupa; b) Bater cabeça no axé, na porta do quarto de santo e pro pai de santo; c) Tomar a benção à TODOS os seus irmãos. Agora sim, caso não haja nada em que se possa ajudar (muito embora seja impossível, pois em uma casa de santo sempre tem algo a ser feito), você pode ir colocar seu tricô em dia 

11- Você trabalhou feito a escrava Isaura e se cansou? Acabou de fazer todo o serviço? Bem, agora você pode pegar o seu maravilhoso APOTÍ e confortavelmente sentar-se nele. Como dissemos no item 5, cadeiras, sendo com ou sem braço, só ebomis, ekedes, ogãs ou zeladores que podem sentar. Existe uma variável do APOTI, que é a famosa ESTEIRA. Nela você pode se sentar, se espichar e até relaxar seus ossos. Ela é sua! Aproveite! 

12- Em sua casa, quando você faz uma comemoração qualquer e é servida uma refeição, você sai atacando o ajeum na frente de seus convidados? Acreditamos que não, né? Portanto, na casa de santo é igual. Antes os mais velhos devem se servir, pra só depois os abians e yawos se servirem. Isso é mais que uma regra, é etiqueta. E você não vai querer ser um deselegante, não é? Lembre-se: Estão sempre observando você. 

13- Você gosta que fiquem pegando suas roupas emprestadas? Pois é, a mãe de santo também não gosta. Portanto, que tal ir comprar um belíssimo tecido de lençol e fazer uma baiana de ração básica pro dia-a-dia? Não sai caro e fica uma gracinha. E você finalmente pára de pegar a roupa do alheio emprestada. Não é maravilhoso? Todos na casa contentes e felizes com suas devidas roupas. 

14- Quem traz dinheiro para o sustento da casa? Você é que não é. Portanto, trate muitos bem os clientes que vão para jogar ou se consultar, pois é deles que vem boa parte do dinheiro dali. Sorrir sempre e servir um copinho de café ou de água gelada não matam ninguém. Que tal tentar? 

15- E vai rolar a festa! O povo do keto, do jeje, da angola e até da umbanda já mandou convidar. Mas, e o dinheiro para comprar o ajeum e o otí do povo? Com certeza o Carrefour não irá mandar as coisas de graça para o barracão, nem o homem dos frangos tão pouco irá dar os bichos e todo o material restante. Portanto, que tal se todos coçassem o bolso um pouco e ajudassem? 

16- Você acha que só por este local ser uma casa de santo, a COPEL, LIGHT, SANEPAR,CEDAE, CEG, TELEGAS, entre outras, irão fornecer água, luz e gás de graça? É claro que não. Portanto, contribua sempre com a sua módica mensalidade. Economizar um pouco na Skol e no cigarro no final de semana já irá ajudar muito no barracão. 

17- O mundo está em guerra, existe muita gente por aí passando fome. Portanto, por que desperdiçar comida? Fazer a quantidade exata só para quem trabalhou dignamente e contribuiu com este maravilhoso ajeum é o coerente, pois você não está no programa da Ana Maria Braga para comer de graça. Se você tem alguma sugestão, leve-a antes ao pai de santo. Espalhar a corrupção sobre a Terra era coisa da novela passada. 

18- Ficou cansado depois da festa? Nada de ir pegando sua bolsa e ir saindo de fininho. Lembre-se da limpeza do barracão. 

19- Roda de candomblé, seja em sua casa ou na casa do alheio, não é lugar de ficar de cochicho e risinhos irônicos. Se você quer fuxicar, vá para um botequim. 

20- Anágua encardida, só se for depois da festa do candomblé. Antes, NUNCA, JAMAIS, NEM PENSAR! Devem ser brancas como a neve, salve anágua de ráfia ou entretela. 

21- Você, irmãozinho, que vê o mundo cor de rosa-choque com bolinhas amarelas, deve deixar esta sua visão progressiva e moderna do lado de fora do barracão. Ali dentro você tem que ver tudo branco. O mesmo vale para as coleguinhas que vêem tudo azulzinho. Casa de orixá é para louvar e cuidar do Orixá, e não para arrumar casório. 

22- Vai rolar um churrasquinho de gato na casa do seu coleguinha no meio da semana, no mesmo dia de função do barracão? Então, peça para ele guardar uma marmita de carne para você e venha cumprir suas obrigações junto a seus irmãos. 

23- Se sua irmã de santo tem uma baiana mais humilde do que a sua nada de ficar xoxando. Lembre-se, o mundo dá voltas e o feitiço pode virar contra o feiticeiro. Amanhã pode ser você com uma baiana de chita e ela com uma belíssima saia de rechilieu. 

24- Caso assista fora do seu barracão a algo diferente do que ocorre em sua casa, nada de ficar xoxando e chamando de marmoteiro. Você não é o dono da verdade e nem ninguém o é. O que pode parecer maluquice pra você, pode não ser pro próximo. Além do mais, comentários sempre são feitos depois. Vai que tem alguém conhecido escutando? 

25- Ninguém tem mais ou menos santo que ninguém. Isso é regra. Sempre. 

26- Respeito é bom e conserva os dentes. Portanto, deve-se pensar duas vezes antes de envolver a mãe de santo e irmãos mais velhos em determinadas brincadeiras de mau-gosto. Apelidos e avacalhações são da porta do barracão pra fora. Além do mais, a próxima vítima pode ser você. 

27- Roupa de barracão é saia comprida, camisú e pano da costa. Shortinhos e top’s devem ser usados somente pra ir ao baile funk. Roupa preta jamais nem na sua casa e nem na casa dos outros. 

28- Sempre que for servir algum mais velho de santo, deve-se levar o pedido numa bandeja ou prato e abaixar-se para servir. Nunca olhar no rosto da pessoa. Responder somente “sim” ou “não". 

29- Benção foi feita para ser trocada. Sempre que você pede a benção, você está na realidade pedindo a bênção ao Orixá da pessoa, e não à ela própria. Portanto, todos devem trocar a benção, mais velhos com mais novos e vice-versa. 

30- Nunca deve fumar na frente da sua mãe de Santo… Principalmente no barracão. 

APOTÍ: A casa constantemente precisa de apotís. Nos grandes supermercados vendem higiênicos banquinhos de plástico. Coopere com a casa e leve o seu. 

31- No barracão o yao não deve dormir em cama. 

32- Se esta frio não deixe de levar seu cobertor, em qualquer situação leve sua toalha de banho ou deixe uma no barracão, depois de usá-la estenda. Ninguém tem obrigação de ficar recolhendo roupa de filho de santo que fica jogada pelos cantos (pior que ficam mofando).  

33- Se você levou, uma roupa emprestada, que usou para lavar. Não esqueça de devolver. 

34- Não deixem roupas que emprestaram do barracão jogadas pelo chão, é muito feio. Veja de onde foi tirada e recoloque no lugar assim que se trocar. 

35- Vai ter festa que bom… 15 dias antes, separe sua roupa, engome o que for preciso…Deixe tudo ajeitado. No barracão pode não dar tempo de arrumar, nem de engomar então mãos a obra. 

36- Se você esta no barracão, dormiu lá. Antes de dar bom dia para alguém, vai direto ao banheiro lavar sua boca, para só então dar bom dia para as pessoas.

COLETÂNEA OXUM, NOS CAMINHOS DO YAWÔ - GUERRA DE SANTO

ESTOU COM GUERRA DE SANTO, TEM DOIS ORISÁS, DISPUTANDO MINHA CABEÇA”.


Muito se tem falado, sobre a questão antes de se iniciar, da dita: "briga de santo por um determinado ori". É bem válido lembrar que para muitos (ou para todos), devemos prestar atenção no que diz o jogo de ifá nesse sentido. 

Mas ouvindo nossos mais velhos vamos prestar atenção: Orisá tem mais o que fazer do que ficar brigando por nossa cabeça, mesmo porque isso já vem determinado do Orun, antes mesmo de nós nascermos. 

Por mais estranho que possa parecer isso tem se tornado muito corriqueiro.  A dúvida que tenho é: essa situação é gerada por ignorância ou maldade? 


Sabemos que, quando OLODUMARE, determina o nascimento de uma pessoa, automáticamente, já determinou sua origem. 

Cada corpo possui um espírito ou força, que nada mais é do que uma pequena massa de energia despreendida de um ORIXÁ. Sendo assim, não é possível uma guerra de ORIXÁ, ou ainda, descendência dupla, cabeça de dois ORIXÁS ao mesmo tempo, os famosos "ORI MEJI", ou ainda, dois ORIXÁS machos ou duas ORIXÁS fêmeas. 

Válido lembrar, que este caso é de fato uma raridade, mas pode acontecer entre 1 em 1.000 devido à ancestralidade que a pessoa possa carregar também. Podendo sim ter um ORIXÁ DE ORI e um ORIXÁ PARA DAR CAMINHOS. Transmitindo assim um conjunto duplo.

Também existem casos de ORIXÁ FÊMEA em cabeça de homem, ou vice versa. Todos têm tanto um como o outro em nossa existência, e na maioria, das vezes, até mais um de ORIXÁ tutor, de acordo com o nosso ODU de nascimento. 

E se pode ser iniciado para todos, mas dentro de seus cultos específicos, e isso, a meu ver, somente na África.

Existem ainda, alguns casos particulares, que por uma questão de travessia do Atlântico (NA ÉPOCA DA ESCRAVIDÃO), forma agrupados em uma mesma categoria, por afinidade ou semelhança, e são denominados ORIXÁ DE FUNDAMENTO. Como é o caso de AIRÁ, que não é um XANGÔ, mas é chamado como tal, OPARA, que não é OXUM, OGUNTÉ, que não é YEMANJÁ, AGANJU, que não é XANGÔ, XOROKE que não é OGUM, é EXÚ ao mesmo tempo, e por ai vai. 

Como disse, quando os negros vieram na humilhante condição de escravos, não podiam cultuar suas Divindades, por isso, precisaram esconder seu culto no sincretismo, e com o passar do tempo, foram feitas algumas adaptações, isto é, AGRUPARAM ALGUMAS DIVINDADES DE CULTO SEMELHANTES

Considero importante que algumas pessoas que se intitulam Babalorisa ou Iyalorisa, antes de saírem por aí confundindo a cabeça de pessoas ingênuas e cheias de fé, procurem conhecimento, para não denegrir ainda mais a imagem do culto. 

O sacerdote que recebeu em sua iniciação, o conhecimento da interpretação do oráculo de Ifá, saberá como identificar a origem espiritual de cada pessoa. 

DESCARTANDO AS INTUIÇÕES OU VIDÊNCIA

KOLOFE.

COLETÂNEA OXUM, NOS CAMINHOS DO YAWÔ - A LISTA DE COMPRAS

É engraçado que hoje fomos solicitados a meditar sobre a real atualidade de uma iniciação, obrigação de um filho de santo, quanto ao seu valor financeiro. 


Temos visto que além de pagar um preço digamos que exorbitante em muitas casas por um simples jogo de búzios, vem o preço absurdicamente caro de uma iniciação. Ou para quem já é do santo, o valor de uma Obrigação de um, de três, de sete e por ai vai a quantidade de anos. 

Muitas vezes, vemos pessoas tirando de onde não se tem, para poder então se iniciar ou dar seguimento às suas respectivas Obrigações. O mais engraçado. O preço não para ai não. Tem a mão do Baba/Ialorixá, tem as comidas secas, tem os boris, tem os bichos, tem ainda até o preço do chão onde se vai ficar como em algumas casas que se cobram valores de um hotel de luxo de cinco estrelas. 

Eu me perguntava, se tudo isso seria necessário em tempos antigos, no tempo de Mãe Menininha, no tempo de Procópio de Ogum? Por que talvez o uso da caridade hoje não se usa tanto assim nas Casas de Candomblé? Fico me perguntando como se faz na questão de uma pessoa pobre, que não teria nem para dar comida aos filhos e precisaria de fato iniciar-se no Orixá? Ou ainda se a pessoa fosse doente, ela morreria por tirar o valor de seus remédios para dar seguimento a sua iniciação? 

Onde será que ficou o tempo onde o ORIXÁ ao vir em terra punha seus pés no chão e no barro? Onde estão de fato às casas simples que existiam para serem trocadas pelos grandes palácios reais que se vêem hoje em dia? Será que o Candomblé resolveu adotar o método de um certo bispo "Mais Cedo" que em lugar de Igrejas resolveu criar Palácios Reais? Ai eu pergunto, mas Jesus, não teria nascido num Estábulo com bois e cavalos e ter sido colocado numa manjedoura cheia de feno? 

Por achar que estaria eu errado em meu modo de pensar, fui levado a pesquisar e engraçado achei vários sites, com pontos de vistas de pessoas da RELIGIÃO que pensam como eu. Por que será que hoje MÃE MENININHA É DE FATO LEMBRADA ATÉ OS DIAS DE HOJE, APÓS ANOS DE SEU FALECIMENTO, COMO GRANDE EXEMPLO DO CANDOMBLÉ? Por uma simples razão, seu amor ao Orixá, e não por fazer uso da fé das pessoas para lucros próprios. 

E entre minhas pesquisas este artigo que vou postar foi o melhor que exprime toda uma realidade que existe hoje em dia. Seria um ponto para se meditar. 

LISTAS, COMPRAS, INGREDIENTES NO CANDOMBLÉ SÃO TODOS NECESSÁRIOS? 


Tenho sempre orientado os amigos que praticam o candomblé que tenham em mente de que precisamos apenas o NECESSÁRIO para o culto, ou melhor dizendo o ESSENCIAL

Mas o que de fato é essencial na nossa religião? 

Sabemos que a crescente "comercialização" da Fé, faz com que zeladores criem LISTAS sem fim de ingredientes para uma feitura. Muito acima da realidade financeira de clientes e futuros filhos. 

É verdade, somos uma religião onde o culto é baseado na culinária sagrada, onde existem animais para sacrifício, onde costumamos assentar nossos Orixás e divindades em panelas, potes, sopeiras, mas quem disse que um determinado ELEMENTO é fundametal? Não pode ser adaptado? Substituido e mesmo deixado de lado? 

Sem entrar no mérito, nos segredos, nos orôs, propriamente ditos, sabemos que o fundamental é o Otá, onde vive, fixa-se o Orixá, o resto, como dizia meu amigo "é perfumaria", quer dizer, é OPCIONAL, dentro das posses (ou desvarios) de cada um. 

Coisas como búzios banhados a ouro, Igbás folheados a ouro, pedras preciosas, jóias, ou mais simples como chaves, nota de Euro, Dólar, miniaturas de peixinhos dourados, espadas, adagas, abanos, chapeuzinhos, etc, são coisas absolutamente desnecessárias, pois não fazem qualquer diferença "nos fundamentos"

Do mesmo modo, indumentárias e paramentos carnavalescos, não fazem daquele Orixá melhor que o outro, que vem enrrolado em panos, em folhagens, em palhas da costa ou folhas de mariô (coqueiros). 

Quem convive no candomblé sabe o que estou dizendo. Eu sempre discordei disso! Desde "pequenininho" na religião. Lembro-me de que na minha feitura tinha um rabo de cascavel. Na época era muito caro! 

Não me lembro o preço, mas imaginei que para chegar na loja (Mercadão de Madureira) Rio de Janeiro, aquele rabo de cascavel "viajou" muito, e que aquela soma exorbitante que eu pagava, jamais chegaria a quem retirou o chocalho da cobra e ficaria na mão dos "atravessadores". Isso sem falar da pobre cobra que perdeu seu rabo! 

Aí vem as penas de pavão (caríssimasssssssssssssssss) e o faisão para Oxum (mais caro ainda) e um monte de "coisas" que no final das contas não fariam a mínima diferença no AXÉ mas só fariam diferença na minha fatura do cartão de crédito. 

Isso sem falar em Ogum usando capacete de soldado romano, Xangô com corôas de três andares cravejadas, as Yabás com paramentos que mais pareciam um bolo de festa de casamento - daqueles de 3 andares - e se bobear, pisca-pisca de árvore de Natal em cima. 

Um Oxósse ou Logun que vinha numa carroagem de verdade, puxado, ao invés de cavalos, por dezenas de Yabás (viraram éguas?) e centenas de periquitos presos à roupa, etc. etc. etc. 

Parecia mais uma fantasia de CLÓVIS BORNAY NOS BAILES DO MUNICIPAL

Sempre me revoltei com isso tudo! 

Fora aquelas besteiras de colocar chaves dentro do assento de meu Pai Airá, como se ele tivesse algum "enredo" com São Pedro e suas chaves do céu! Enfim... digo isso tudo apenas para exemplificar. 

Os "Mais Velhos" sabem muito bem, gente séria no santo, o que PODE TER NUM ASSENTO E O QUE NÃO É ESSENCIAL

Quem sabe, sabe, e para não ferir preceitos, não vou dizer aqui. Mas, também sabemos as listas milionárias que saem dos Ilês Axés para as lojas de santo, com o aval do zelador, ou conluio dele com o comerciante. Para "meter a faca" no filho ou no cliente. 

Isso quando o zelador não diz: "Vou te mandar aí a Dona Fulana, dondoca, mete a faca nela que ela é desentendida do culto"

Já passei por "causos" de atender pessoas que eu, ao pedir um frango, me perguntou a marca! Juro por Deus! (Sadia, Perdigão, Rica, etc). O nível de desentendimento dos clientes as vezes assusta, mas nem por isso podemos abusar deles e tê-los como tolos! 

Este tópico é para propor uma reflexão geral. 

Para propor que voltemos ao tempo de que "com uma vela e um copo dágua se levantava uma vida" ou comparativamente, com um galo, um frango, uma comida seca, um padê pra Exú, um pombo, se abria caminhos de muita gente! Quem tem santo de verdade e já viu MILAGRES sabe do que estou falando. Não somente na Nação, mas também na Umbanda. 

Não estou desqualificando nem generalizando as Casas sérias. As listas justas. Os ingredientes realmente necessários, como uma d`Angola, um pombo, um Igbi. (Quem sabe sabe!) Nem um Obi ou Orobô! (Quanto poder tem!!!!), mas apenas refletindo sobre esta comercialização absurda, conta o "gasta-gasta" do candomblé, e repensando que para Deus, "copo dágua é remédio"

Repito. Não sou contra as casas e seus métodos, mas a favor de uma reflexão e tomada de consciência para que o CANDOMBLÉ SEJA ALGO VIÁVEL E POSSÍVEL

Eis a pergunta: EM SUA CASA DE SANTO, COMO ISSO ACONTECE, COMO SE DÃO AS LISTAS DE COMPRAS PARA CLIENTES E FUTUROS YAÔS POR EXEMPLO? 

Meus respeitos. 

Pai Obàtundè. 

PALAVRAS DE PEDRO MANUEL T' OGUM

Motumbá para quem é de motumbá; Saravá para quem é de Saravá; Kolofé para quem é de Kolofé. Boa Tarde.

De fato lidar com a questão de ABIÃNS, YAWÔS e EGBÔMIS é de fato complexo. Não se trata de assuntos digamos difíceis, mas que requerem um certo cuidado e uma grande atenção. Pois tratam-se de etapas na vida de qualquer pessoa que venha a se iniciar na realidade do CANDOMBLÉ

É bem válido lembrar que na realidade da UMBANDA SAGRADA, estes processos não acontecem. O que existe sim é determinados atos em que o FILHO DE SANTO se recolhe, digamos assim, para dar seus prosseguimentos dos passos até atingir a sua coroação.

Mas hoje em dia, infelizmente, estamos vivenciando duas realidades em que de fato podem, para os olhos de muitos, ser entristecedora. Para outros, ser até perigosa, e para outros ainda, ser sem fundamentos.

Estamos num tempo como se estivéssemos numa cozinha fazendo um refogado. E para tanto, precisamos ir misturando os ingredientes. Ou até mesmo posso comparar perfeitamente o que vou abordar, nesta minha colocação, como uma imensa vitamina de frutas, até que tudo se torne uniforme e homogêneo.

Bem sabemos que tanto o CANDOMBLÉ em si, de raíz, possuí seus fundamentos, bem como a UMBANDA SAGRADA, possui os seus processos de evolução mediúnica. Mas hoje em dia tenho visto por vários lugares; seja na vida real, seja pela internet, determinadas casas misturando situações e atos sem o devido procedimento adequado, ou com o devido conhecimento.

Bem sabemos que no CANDOMBLÉ, todo e qualquer FILHO DE SANTO, que se entende desde o processo de ABIÃN para atingir o grau de YAWÔ, deve passar pela INICIAÇÃO. Um processo onde rezas, cantigas, atos e fundamentos são exercidos para que a vida deste novo ser espiritual flua de acordo com sua determinada religiosidade. Mas para mim, é uma verdadeira surpresa ver em muitas casas ditas UMBANDA SAGRADA, estarem buscando fazer o mesmo. Atos que seriam unicamente do CANDOMBLÉ, sendo aplicados ou simulados de forma errônea, a fim de consagrar um dito FILHO DE SANTO

Casos como: pessoas raspadas para Caboclos, pessoas sendo raspadas para Pretos-velhos e até pessoas sendo iniciadas para Exú Catiço. Atos literalmente sem procedência e sem fundamentos algum  que os legalize como procedimentos de uma RELIGIOSIDADE CONCRETA E VERDADEIRA.

De fato devemos tomar muito cuidado com isso, afinal meu ponto de vista é sempre dizer: "Cada um no seu devido quadrado". Mas não posso negar outra realidade triste que tem acontecido por ai, hoje em dia, e numa situação digamos sem controle.

Os famosos PAIS E MÃES DE SANTO, sem os seus devidos anos completos, arriados e concluídos, principalmente dentro do CANDOMBLÉ. Hoje a ganância pelo poder e a busca desenfreada pelo saber do oculto faz com que as devidas etapas que devem ser muito bem concluídas, sejam puladas em favor do dito: "quem paga mais, leva"

Motivo este, que me levou a aproveitar a realidade de que OXUM é a SENHORA DO RONKÓ (QUARTO DE SANTO), pois em seu útero todo e qualquer YAWÔ é gerado. E assim compartilhar com vocês os temas que desde anteontem estamos abordando finalizando na data de hoje, e justamente, hoje também, darmos início aos tópicos referentes aos YAWÔS.

Espero que não deixem de acompanhar esta COLETÂNEA OXUM, SENHORA DOS YAWÔS, que estamos dando início hoje.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

COLETÂNEA OXUM, NOS CAMINHOS DO ABIÃN - ABIÃNS E INICIADOS


Creio que este assunto não se esgota facilmente. As relações impetuosas entre filhos e sacerdotes dentro dos Ilè Àse precisam ser cada vez mais lapidadas. Os tabus referentes a maus tratos (físico, oral e gesticular) contra sacerdote, ancião, pai e mãe desagradam os olhos de Òlódúmarè. 

O assunto abordado abaixo pede uma reflexão, vivemos pedindo respeito pelo nosso culto/religião, será que estamos respeitando-os com devido peso, com a mesma reciprocidade? 

Òrúnmìlá no Odù Òsá'Ìwòrì nos diz: 

"Se eu lhe der tudo que você me pede, será que você irá se esforçar por si mesmo?" 

Boa leitura. 

1. Cuide do seu santuário (se tiver algum) com sinceridade, humildade e limpeza. Não se aproxime de seus santuários se você foi beber, fumar ou ter relações sexuais. E nunca venha de forma "impura"

2. Não faz sentido para mim se você usa ilekè e se veste como uma "stripper" ou "bandido". Então, por favor, vista-se adequadamente se você estiver usando ilekè. 

3. Nunca finja ser algo que você não é. Se você recebeu um igbá e não passou por Igbodu (processo de iniciação), então você só tem um igbá de òrìsá. Você não é um sacerdote ou a sacerdotisa da divindade assentada. 

4. Se o seu pai diz que você precisa ter relações sexuais com ele para remover qualquer tabu ou para subir na vida, fuja dele. Ele é charlatão, uma fraude e etc. 

5. Se estiver participando de um sire òrìsá, por favor, se vista adequadamente. Minissaias, tops, shorts, não podem, usar calças compridas também não, ficar na frente dos atabaques é desrespeito ao Ilè e ao òrìsá. 

6. Ao cumprimentar um sacerdote ou sacerdotisa em público, é apropriado Kunle (reverência leve, dobrar joelhos) ou mesmo Dobale (ir ao chão) para eles. Eu sei que isto vai levantar as sobrancelhas, mas para fazer Foribale para alguém em público em um ambiente não espiritual é um sinal de arrogância. 

7. Como cumprimentar um santuário ou sacerdote depende do seu sacerdote. Eu já vi isso ser feito de forma diferente por pessoas daqui dos estados e do exterior (Nigéria e Daomé). Quando em dúvida, mostre o seu respeito. 

8. Nunca se deve fumar beber, usar drogas, ter relações sexuais, usar de palavrões enquanto se usa seu ileke (fio de contas). Estas são ferramentas sagradas que foram dadas a você e você deve tratá-las como tesouro. 

9. Se você não estiver satisfeito ou deseja sair da casa espiritual do seu sacerdote e o seu desejo é seguir em frente, de a devida notificação. Solicitamos que se possível, ofertar Adimu de partida (oferta) e seguir seu caminho em paz. 

10. Nunca use o que foi ensinado pelo seu sacerdote para fazer mal aos outros. Lembre-se a energia que você colocar para fora vai voltar para você. Se você enviar a negatividade, a negatividade vai voltar para você. Se você enviar amor e paz, o amor e a paz vão voltar para você. 

11. Nunca, jamais, doe seus igbás. (ouça seu sacerdote!). Um Igbá òrìsá deve nascer dentro do santuário, Igbá não nasce por osmose! Isto é um tabu, mas infelizmente e vergonhosamente muitos estão fazendo isso. 

12. "Compra de Igbá", tem gente tentando acumular o maior número possível e isto não é bom, se você não tiver autorização através da adivinhação adequada de montar seus Igbás não o faça. Ter um Igbá Òrìsá é um trabalho árduo. Estes são representações do òrìsá e requer muito cuidado. 

Lembre-se, não é sobre você (humano), nem sobre mim, mas sobre Egúngún, irunmolè, òrìsá e Òlódúmarè! 

Texto enviado para nosso email: manufeshowboy@yahoo.com.br pelo BLOG O CANDOMBLÉ. 

COLETÂNEA OXUM, NOS CAMINHOS DO ABIÃN - DEVERES E OBRIGAÇÕES

Dando continuidade às nossas meditações de hoje vamos logo de encontro aos SIMPATIZANTES, diga-se de passagem, aqueles que tem interesse em ingressar seja na realidade da UMBANDA SAGRADA ou bem como no CANDOMBLÉ

Esta postagem, a principio seria diretamente voltada ao público do CANDOMBLÉ, pois o termo: ABIÃN se direciona a todos aqueles que ainda não passaram pelos atos chamados INICIÁTICOS ou INICIAÇÃO propriamente dita. 

Apesar que temos visto hoje em dia, muitos exemplos de pessoas não iniciadas, apenas verdadeiros ABIÃNS, mas com um profundo conhecimento espiritual. Conhecimento este que pode vir por "hereditariedade" ou "n" outros fatores que através de atos verdadeiramente "mediúnicos" lhe permitem tal sabedoria. 

Muitos tem se questionado sobre quais seriam as atitudes mais corretas para um noviço no CANDOMBLÉ a serem tomadas e como de fato seriam reconhecidas como ABIÃNS. Desta forma, através de uma postagem de nosso amigo FERNANDO DE OXAGUIÃN apresentamos alguns tópicos que deveriam ser seguidos e ensinados tanto pelos mais velhos como por muitos (as) BABALORIXÁS/IALORIXÁS na realidade do CANDOMBLÉ.




O Abiyan é toda pessoa que depois de fazer uma consulta através dos búzios com o Babalorixá ou Iyalorixá, tenha tomado no mínimo um Obí e tenha um fio de contas lavado de Oxalá. 

O procedimento e comportamento básico do Abiyan: 

. Estar vestido de branco principalmente se a casa for de Oxalá; ressaltando que: 

- Para os homens – calça comprida e camisa branca; 

- Mulheres – Vestido ou saia/camisa branca; 

. Ao chegar ir direto beber um copo d'água para esfriar o corpo da rua, sem fazer paradas e evitar qualquer conversa. 

. Tomar seu banho de ervas e colocar sua roupa de morin; 

. Bater a cabeça no Axé, na porta dos quartos de Santo; para o Babá/Iyá, “trocar” à benção com TODOS os seus irmãos, sendo por ordem hierárquica (dos mais velhos aos mais novos), de acordo com a ordem iniciada. Obs: Se tiver acesso a essa informação.

. Perguntar ao Babá/Iyá, sobre a função que deverá fazer na Casa; muitas vezes por ordem do Babá/Iyá, as funções podem ser determinadas pelas Ajoiês (Ekédi) da Casa. 

. O Abiyan deverá fazer suas refeições sentados na ení (esteira), e assim que terminarem, deverão levantar as mesmas e guardá-las; não devem colocar os pés calçados nas enís; 

. O Abiyan somente poderá dormir em ení, caso se faça necessário terá a autorização do Babá/Iyá, para dormir nos quartos dos Orisás

. O Abiyan ao levantar não deve falar com ninguém, deve antes beber um pouco de água; isso é para apagar os vestígios ou traços negativos provocados pelo mau hálito

. O Abiyan não deve ocultar do Babá/Iyá qualquer tipo de dúvida, problema e mal entendido. 

. O Abiyan não deve fumar na frente de seu Babá/Iyá. 

. O Abiyan nunca fica de pé em frente ao Babá/Iyá e sim agachado, com a cabeça baixa. 

. O Abiyan nunca interrompe o Babá/Iyá quando estiver conversando com alguém. Quando tiver visita no barracão (egbomis, ekedes, ogans, zeladores), seja em dia de festa ou em dia corriqueiro, é correto que os filhos se abaixem próximo a ele para dirigir a palavra. Diz então: AGÔ (Licença) e esperar ele dizer AGÔ YA, e de cabeça baixa, falar com ele em tom de voz baixa. 

. O Abiyan não deve passar pelo o Babá/Iyá com a cabeça erguida, e sim um pouco curvado para frente. 

. O Abiyan sempre que for servir o Babá/Iyá, deve-se levar o pedido numa bandeja ou prato e abaixar-se para servir. 

. O Abiyan só deverá entrar nas rodas de Xirê se forem chamados pelo Baba/Iyalorixá. 

. O Abiyan tem suas funções na casa relacionadas à limpeza e manutenção, salvo se for um Abiyan antigo e de confiança poderá exercer outras funções. 

. O Abiyan não tem Orixá definido ainda, por isso é denominado um Abiyan (aquele que está começando em um novo caminho) mesmo que venha de outra casa. 

. O Abiyan deverá sempre pedir Agô para entrar e sair de cada ambiente do terreiro e esperar a resposta, Agô ya de um mais velho. 

. O Abiyan só poderá ir embora com autorização do Baba/Iyalorixá. 

. O Abiyan não questiona rituais litúrgicos de sua casa, respeita a hierarquia e se coloca sempre no seu lugar. 

. O Abiyan deve aproveitar o máximo esse período de aprendizado, humildade e retidão, pois é nesse momento que irão refletir quanto a futura iniciação, as responsabilidades do que é ser um Adôxu, um Iyawó. 

. A Vivência no axé, a disciplina, observar o comportamento dos mais velhos, ser verdadeiro com seus sentimentos para com o Orixá, estar despojado de vaidades, e entender que o mais importante não é "fazer o santo e sim saber o porque de se iniciar para o santo". Não há pressa para iniciação, Orixá entende e nos concede essa oportunidade de aperfeiçoamento e adaptação, salvo as raras excessões. 

Ser um bom Abiyan é estar se preparando para no futuro ser um bom Iyawó e assim como ser for um bom Iyawó é estar se preparando para ser um bom Ègbón. 

De: Mônica D'Òsóòsì-Iyá Kèkèré do Ilé Àse Òsòlùfón-Íwín

COLETÂNEA OXUM, NOS CAMINHOS DO ABIÃN - TESTEMUNHO DE VIDA

Quarta-feira, 09:55hs da manhã, e aqui estamos nós vindo até você para um novo dia de atualidades em nosso BLOG OLHOS DE OXALÁ

Temos visto algumas realidades dentro do FACEBOOK, que nos motivaram mais uma vez tocar neste assunto. A presença dos Abiãns, numa casa de santo. Pois é engraçado que para muitos o CANDOMBLÉ se inicia após o noviço ter passado pelo processo de iniciação (feitura), mas a realidade não é bem assim. 

Concordamos em gênero, número e grau que para alguém chegar a ser um EGBOMI, este chegar ao cargo de BABALORIXÁ, ou no caso feminino IALORIXÁ, se isto lhe for permitido por seu ORIXÁ em chegar a esta função dentro da RELIGIÃO. Ninguém chega a nada se não passar pela realidade de Yawô. Mas nenhum Yawô nasce ou acontece, se na sua casa não houver os ABIÃNS.


Ou seja, sempre teremos esta realidade de ABIÃN, que passará pra YAWÔ, e de YAWÔ passa-se a EGBOMI e de EGBOMI, aos altos cargos da RELIGIOSIDADE. Mas... sem Abiãn, não tem Yawô, não tem Egbomi e corre o risco de se chegar ao dia de não ter mais ninguém para dar seguimento a um ILÊ ASÉ

Para se entender melhor vamos ver que: 

Abiã ou Abian - É toda pessoa que entra para a religião do Candomblé, também chamado de filho de santo, após ter passado pelo ritual de lavagem de Fio de contas e o Ebori. Poderá ser iniciada ou não, vai depender do Orixá pedir a iniciação. Só deixará de ser abian quando for iniciada, sendo então um yawô. 

O abian não participa dos preceitos internos, só participa das festas públicas, ainda não tem um compromisso com o Ilê (casa), nesse período terá a oportunidade de conhecer as pessoas e o funcionamento da casa, se tiver alguma coisa que não goste, poderá sair e procurar outra casa que seja do seu agrado ou de sua confiança. 

Ao abian é permitido ajudar em quase todos serviços da casa, sempre orientado por um mais velho que diga o que pode ou não fazer. Essa fase é muito importante para se aprender vendo e ouvindo, as perguntas não são muito bem vindas, observar e saber ouvir é a melhor maneira de aprender, quando um mais velho se dispôr a falar e contar, abaixe-se e preste atenção, não interrompa, escute e grave. 

Os mais velhos já estão cansados e não têm muita paciência para ficar respondendo as milhões de perguntas que o abian gostaria de fazer, portanto seja paciente, não seja muito apressado, tem a vida inteira para aprender, essa é uma das normas do candomblé. 

Dando continuidade e jus à categoria criada, nós temos o imenso orgulho de publicar no espaço dos leitores as palavras de puro coração de uma abian que, se seguir por estes caminhos que ela vem seguindo, será uma yawô exemplar e uma religiosa bem necessária para o futuro da nossa religião.


"Eu sou uma abian e sou uma abian feliz. 

Estou começando a frequentar a casa de santo onde irei me inciar de uns meses pra cá e devo entrar pra fazer santo entre janeiro e fevereiro (aliás, Fernando e Nelson já sabem que foram “intimados”, assim como o resto do povo do RJ, para a saída de Logun-ede). 

Mas ó, eu me sinto tão feliz, tão contente por ser abian… Pelo menos na casa que frequento, uma casa de Ketu, eu sou quase paparicada (risos): tem sempre alguém ao meu lado me ajudando, me ensinando a fazer alguma coisa, me perguntando se está tudo bem comigo, se estou precisando de alguma coisa… Se assisto a um ebori, ou algo sem tanto fundamento, sempre um egbomi fica ao meu lado para me explicar o que está acontecendo, me dizendo o porquê, o motivo… 

Em alguns momentos, sinto medo de fazer santo: ficar careca, ficar 3 meses de kele, não abraçar meu marido, sentar no baixo, dormir na esteira, não me depilar, usar leite de rosas no lugar do desodorante, ficar sem os meus creminhos anti-idade diversos (povo de Logun-ede tem um medo tão grande de envelhecer… ), andar na rua com o kele escondidinho, enroladinho num pano branco, ou com uma echarpe branquinha o cobrindo… Nossa, chega a me dar PAVOR! Além disso, sou casada e o pior de tudo: meu marido não gosta de Candomblé, não entende nada, mas respeita profundamente a minha decisão. 

Mas são nessas horas que eu penso em Logun-ede. Penso no amor por Ele, penso na relação maravilhosa que estou construindo com o meu Orixá e coloco algumas coisas na balança. Sabe, Orixá nenhum vai me matar, me aleijar ou me “cobrar” de forma alguma se eu não fizer santo. 

Mas eu sei que, em algum momento antes de nascer, lá no Órun (céu), eu firmei um pacto: eu disse a Logun-ede que eu queria atravessar as dificuldades da minha vida de mãos dadas com Ele, para que Ele me carregasse no colo quando eu não tivesse forças para andar com as minhas pernas. E nesse momento, minhas próprias idéias se clareiam, a mente “desanuvia” e eu vejo que não há sacrifício nenhum em ser uma yawo, em ter minha cabeça raspada e cumprir 3 meses de kele e 1 ano de resguardo para alguns preceitos. 

Nesse momento eu lembro que as coisas das quais eu me resguardo durante o tempo de preceito, são energias que eu deixo de absorver. Sabe, tudo no mundo é troca de energias, e, quando eu me preservo de algumas coisas, quando eu me resguardo de algumas coisas, eu evito absorver uma energia menos positiva que a do meu Orixá, ou até mesmo uma energia realmente negativa, e acumulo dentro de mim, apenas a energia linda, positiva e fantástica que o meu Pai compartilhará comigo a partir do momento da iniciação. 

Também conversei de forma muito longa e profunda com o meu marido, e disse para ele que a iniciação e o resguardo que são pedidos são apenas para trazer coisas boas para a minha vida e, consequentemente, se eu estiver melhor, se a minha energia estiver melhor, a nossa vida em família, como um todo, também estará melhor. 

E Logun-ede, em Sua sabedoria, também arrumou diversas maneiras de mostrar ao meu marido que Ele só quer o melhor para mim e, consequentemente, o melhor para mim acaba sendo o melhor para nós dois.  

Ser abian é fantástico para mim: estou aprendendo, estou fazendo um curso de Religiosidade Africana, que é pra me iniciar numa religião tendo total e completa certeza do que é Candomblé e do que eu quero. 

Estou curtindo a fase de “namoro” com o meu Orixá: não me interessa a qualidade dele, apenas que Ele é uma energia única, fantástica, soberana na minha vida. Estou O conhecendo. E estou sofrendo uma ansiedade gostosa, louca para me iniciar, tendo certeza que, não importa o caminho: o que importa é que a colheita dos frutos junto ao meu Pai será linda, será farta, será de enorme retorno para mim. 

Acredito que ser abian é o momento de perguntar TUDO, de falar, de me informar, de ouvir até mesmo do Nelson um “nem sob tortura”, quanto às minhas perguntas que serão respondidas após a iniciação. 

Ser abian, pelo menos na casa que eu frequento, é ser um feto, se preparando para nascer, se preparando para BI (verbo nascer em Ioruba), e para nascer, se precisa aprender a viver depois disso. 

Se você não está à vontade, converse com o seu Babalorixá: ele é seu zelador, zelador do seu Orixá. Diga a ele que se sente de lado, que isso a magoa: se ele não puder resolver, você terá feito a sua parte. Não importam cargos nesse momento: o que importa é uma conversa franca e honesta sobre os seus sentimentos. 

A ausência dela pode causar um arrependimento depois da iniciação, por não ser tratada da maneira que se esperava e isso pode gerar uma frustração até mesmo com o próprio Orixá / Vodum / Nkise, mesmo quando sabemos que o nosso ancestral não tem nada a ver com os erros dos que nos cercam.  

Ser abian para mim é o tempo de conhecer a religião e me apaixonar pelo meu Orixá. 

Eu amo esse espaço enormemente e sei que vocês sabem disso. Obrigada por manterem o blog funcionando!! Vocês são incríveis!! 

Que Logun-ede abençõe a todos nós! 

Beijos no coração!! Aline Leonardo." 

Desta, forma percebemos então que sem os Abiãns, as casas de Santo na verdade, não são nada. Indiferente da quantidade de tempo em que uma pessoa esteja neste estado. Deve-se fazer somente o que o ORIXÁ pede e na hora que ele quer. 

Já esta na hora de repensar-se alguns procedimentos de iniciar-se pessoas em quantidade, como que baciada, para se ostentar CASAS CHEIAS, como se fossem as melhores do mundo ou até as mais perfeitas. 

Deve-se pensar e verificar que antes a QUALIDADE do Yawô, que vai se iniciar, isto se de fato ele precisar. Do que muita QUANTIDADE, para somente mostrar volume.

PALAVRAS DE PEDRO MANUEL T' OGUM

Motumbá meus (minhas) irmãos (ãs) de nosso BLOG OLHOS DE OXALÁ

Como tenho feito nas últimas vezes em que estive passando por aqui. Venho novamente nesta manha me direcionar a todos vocês, para de fato agradecer a presença de todos na minha vida, mesmo que para muitos ainda de forma virtual.

Pude perceber que o tema desta nova COLETÂNEA OXUM, NOS CAMINHOS DO ABIÃN, foi de fato muito bem visualizada. Mas já deixo claro que ainda hoje vem mais assuntos baseados no mesmo tema, dando uma continuidade.

Claro que para muitos, entre todos, alguns devem ter se perguntado: Mas o que tem haver a ORIXÁ OXUM com a vida de um ABIÃN. Eu posso dizer tem muito haver.

Nunca devemos nos esqueçer que OXUM é a Senhora de todos os RONKÓS, PEJIS, SABEJIS, enfim  seja lá a denominação que este espaço adquiriu na sua nação ou na sua realidade. E mesmo o ABIÃN, ser uma pessoa não iniciada, é justamente OXUM que já vai preparando aquele ser para logo, de acordo com a vontade dos ORIXÁS, seja ele qual for o regente daquele ORI, ela já vai preparando o caminho até o receber em seu útero, no caso o QUARTO DE SANTO.

Jamais podemos esqueçer que enquanto uma pessoa for ABIÃN, por mais que o JOGO DE BÚZIOS, também regido por OXUM e EXÚ, possam ter mostrado de quem será aquele ORI especificamente. Não devemos jamais esquecer que neste processo todas as cabeças são filhas de OXALÁ e de YEMANJÁ ( pai e mãe de todas as cabeças).

Após a pessoa, indivíduo, ter se adentrado no QUARTO DE SANTO e lá o seu ORIXÁ ter nascido. Ai sim, OXUM o entrega nos braços de YEMANJÁ, para que esta lhe direcione no seu destino de forma correta. Não é a toa que todos ao nos iniciarmos passamos pelo BORI, que é justamente a entrega à YEMANJÁ, SENHORA DE TODAS AS CABEÇAS, o destino daquele novo ser espiritual.

Então vemos que desde que o ABIÃN, vai abrindo seus horizontes, discernindo onde permitir o seu passo de INICIAÇÃO, OXUM, vai se fazendo presente. Preparando-o a se modelar para o novo passo de vida que o mesmo vai ter a seguir.

Desta forma, ressalto a todos a acompanharem o andamento desta COLETÂNEA em questão, mesmo que já tenham sido iniciados ou não. Para relembrarem, aos que já foram feitos, E AOS QUE NÃO, que vão se permitindo modelar para um novo processo de vida que é único, especial e marcante.

Lembrando que, como havia anteriormente prometido, hoje estaremos voltando com a postagem MENSAGEM DO DIA, a qual, ajudou muita gente a dar uma repensada nas suas situações de vida e que para muitos ainda acalentou em momentos de fragilidade, ou até, dando um verdadeiro "UP" para fazer da própria vida um pouco melhor.


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

COLETÂNEA OXUM, NOS CAMINHOS DO ABIÃN - INICIAÇÃO RELIGIOSA E SOCIAL


Na história dos cultos afro-brasileiros existe uma categoria de pessoas que são determinadas ou classificadas de abian – uma palavra de origem yorubá que quer dizer Abi= “aquele que” e An= seria uma contração de onã, que quer dizer “caminho”. A junção destas duas palavras formou o termo abian, que quer dizer “aquele que começa um novo caminho”

Ou seja, o abian é aquele que está começando um novo caminho, uma nova vida espiritual. Esse é um momento de uma importância, pois, é nesse período que o noviço ou recém chegado tem contato com os já iniciados passando a observar os vários comportamentos e desempenhar também várias tarefas, sem exercer um maior envolvimento com a religião. 

Desta forma, entendemos que abian é um rito de passagem presente no cotidiano da religião de matriz africana, marcados por cerimônias que dentro do contexto representam igualmente a progressiva aceitação do iniciado e sua participação na comunidade na qual está inserido, considerando tanto o seu valor individual quanto o coletivo. 

Assim, é importante ressaltar as formas organizativas das sociedades africanas e como seu transplante pelo atlântico de forma escravizada enraizou-se na cultura dos povos negros no Brasil. Com isso, teremos a oportunidade de entender as formas de organização, mobilização e resistência dessa cultura nos seus variados aspectos sociais, culturais e educativos. 

Por isso, é importante de buscar na essência dessas culturas “primitivas” o significado histórico de suas organizações, de sua vida social, cultural e do seu processo educativo, para que de forma reflexiva possamos construir uma proposta de transformação social. E ainda o passado dessas culturas, atualizando-as a sua contemporaneidade e solidificando novas significações culturais e educativas tendo como foco uma passagem afirmativa para um futuro de igualdade racial. 

Diante disto, buscamos no rito de passagem de uma das mais antigas culturas africanas no mundo que é o candomblé, um significado do seu processo de iniciação abian, fazendo uma análise comparativa com o processo de ações afirmativas como fonte de educar para a igualdade racial na sociedade atual. No entanto, o processo de iniciação resulta na compreensão, no conhecimento e na prática no seu ciclo de passagem, levando a uma mudança de status e ao mesmo tempo trabalhando a personalidade e a desconstrução de padrões pré-estabelecidos e na construção de novos padrões que nortearão a sua conduta e existência. 

Os ritos de passagem servem como base e fonte de inspiração para uma análise reflexiva da sociedade atual, visto que, torna-se um objeto de variadas abordagens teóricas e possibilita descortinar um panorama muito mais amplo. Pois, suas diversas abordagens teóricas associadas às ações afirmativas como forma de educar para a igualdade racial demonstram a vitalidade da proposta como ferramenta conceitual para nos ajudar a compreender mais determinada sociedade, seus valores pensados e suas vivências. 

Desta maneira, o rito de passagem marca simplesmente a culminância do processo de cerimônia de iniciação, do teor da jornada iniciativa como sujeito de transformação individual e do seu processo de reconstrução da sociedade como forma de reparar prejuízos causados a populações excluídas do processo de desenvolvimento educacional, cultural, social e econômico. 

É neste contexto que fazemos uma relação entre abian, um ritual de passagem para ações afirmativas que visam combater os efeitos acumulados em virtude das discriminações ocorridas no passado e promover a educação para a igualdade racial. Essa relação dar-se através de um processo histórico que se inicia no século XVI, quando da cruzada forçada de milhões de negros pelos colonizadores para o Brasil, para trabalhar como escravos. 

Durante mais de 350 anos, a mão-de-obra escrava constituiu a principal força de trabalho no país e a base de toda atividade econômica. Mesmo após a abolição da escravidão os negros encontram até hoje no século XXI, dificuldade para integrar a sociedade brasileira, visto que, as reformas agrária e educacional não ocorreram e o acesso dos negros a escola e terra tornou-se bastante difícil. 

Compreendendo o significado do rito abian como aquele que tem que nascer de novo, pode-se traçar um paralelo com a história de organização da sociedade brasileira. Uma sociedade que se acostumou a superar obstáculos, a nascer e renascer para criar um novo cenário, por muito tempo escravocrata, dolorosa e inconseqüente. 

Vale ressaltar que a organização dessas sociedades africanas era inicialmente matriarcal e que se prolonga até os dias de hoje em algumas tribos do imenso continente africano. Esse ponto é importante e serve como reflexão da sociedade atual. Esta não se fundamenta no processo de inclusão tanto de gênero quanto de raça. 

Isso implica buscar uma análise, diante do propósito de pesquisa, que foca numa confluência de reflexões sobre o não aproveitamento das experiências de organizações sociais de outras culturas, provocando assim, uma construção incompleta de sociedade por conta de uma dicotomia entre sociedade democrática e exclusão da população negra do desenvolvimento social, político, econômico e cultural. Neste sentido, é extremamente relevante conhecer a história da África para o mundo e para a compreensão da sociedade brasileira. 

Devemos pensar que, a história da humanidade tem seu inicio no continente africano, é o que aponta as mais modernas pesquisas antropológicas e arqueológicas, sendo um ponto central a saga dos povos africanos em superar os obstáculos hostis e sua forte ligação com a natureza “criando sociedades resistentes capazes de no decorrer do tempo, suportar as agressões vindas das regiões mais favorecidas”. (SOUZA, 2008, P. 15) 

Com essa perspectiva, é salutar uma reflexão critica como forma de compreender o quanto é importante os estudos sobre a África nas escolas brasileiras e especificamente nas escolas do Estado de Sergipe. 

Um fator importante é a história cultural de matriz africana que traz marcas aprofundadas na formação e no desenvolvimento da sociedade brasileira como forma indelével da nossa identidade. Por isso, a necessidade de estudar a África e inserir como um novo olhar no conhecimento. Não refletindo, uma visão eurocêntrica e utópica como nos primeiros momentos da descolonização, mas sim na aplicação de uma metodologia diversificada e critica da realidade. 

Diante disto, assinalamos como elemento fundamental para o reconhecimento das necessidades históricas da população negra a implementação da Lei 10.639/03, que obriga todos os níveis de ensino ao “estudo da história da África, dos africanos, da luta dos negros no Brasil, da cultura negra e do negro na formação da identidade nacional.” (MUNANGA, 2006, P. 25). Assim, estabelecemos a Lei como instrumento de ligação entre um processo comparativo do Abian – um ritual de passagem para as ações afirmativas e a educação para a igualdade racial. 

COLETÂNEA OXUM, NOS CAMINHOS DO ABIÃN - CADA COISA AO SEU TEMPO


Amados (as) amigos (as), dentre minha jornada no CANDOMBLÉ fui reparando que existe sim um tempo pra tudo em qualquer situação, não somente na nossa vida pessoal, social ou profissional; mas também dentro de nossa vida religiosa. 

Vejam bem, a vida nos permite coisas as quais, temos de passar por elas sabendo lidar com cada situação de uma forma, jeito e modo diferente. Desde o tempo em que nascemos, passamos pela infância, o primeiro trabalho numa empresa, enfim, cada coisa no seu devido tempo e espaço. 

Sou neto de uma ialorixá, Mãe Rosa de Nanã. Nasci na África em Angola (CASO TENHAM DÚVIDAS TENHO FOTOS DISSO NO MEU FACEBOOK), filho de Maria Irene, filha de Iansã, a qual seria sucessora do Ilê de minha avó, mas que por escolha própria renunciou a esta função, passando para o encargo de meu tio Antonio de Omulu, cujo Ilê esta fincado no RIO DE JANEIRO, na cidade de NITERÓI

Já fui membro ativo no Candomblé, desde meus 11 anos, quando por intermédio das orações e ebós da FALECIDA MÃE CARMEM DE OXUM, Vila Sônia, Zona Oeste de São Paulo, fui curado de uma paralisia nas duas pernas decorrentes de um acidente auto-mobilístico, cujos resultados ainda hoje são desconhecidos da medicina, devido aos ligamentos dos dois joelhos estarem rompidos e ando, corro, pulo e salto. 

Mas mesmo tendo frequentado a casa dela durante 13 anos de minha vida, onde aprendi muitas coisas da RELIGIOSIDADE tanto do CANDOMBLÉ, como da UMBANDA SAGRADA, pois existiam as duas realidades nesta casa. Cuja movimentação era constante naquele barracão - manha, tarde e noite. 

Uma das coisas que mais me chamava a atenção nesta mulher era de fato o amor INCONDICIONAL aos ABIÃNS (carinhosamente chamados NOVIÇOS, por ela). Um carinho onde ela sentava contando suas histórias, colocando todos para estudar e trabalhar para já irem discernindo se seria a vida dentro de um ILE ASÉ, o certo para a vida de cada um deles. E este estágio com ela podia demorar dias, meses, anos. Pois um dos seus ensinamentos era: "TUDO TEM SUA HORA CERTA"

Hoje, após vários anos de seu falecimento, vejo na realidade do CANDOMBLÉ uma pressa de se iniciar logo um ABIÃN. Como se fazer um IAÔ fosse caso de baciada. E a coisa não funciona bem assim não. 

A iniciação é uma coisa séria, que deve ser pensada, avaliada, reavaliada pois é uma posição para a vida toda. Mas não podemos também esquecer que todos os grandes BABALORIXÁS E IALORIXÁS de hoje já foram também um dia ABIÃNS. Mas parece que isto esta caindo um pouco no esquecimento de muitos. 

De ABIÃN, até se chegar ao estágio de "mais velho", leva muito tempo. Mas muito tempo mesmo. Quanto mais para chegar à função de BABALORIXÁ ou IALORIXÁ, cargo este que não é para todo mundo. Existe uma escolha, escolha esta de 1 em 1000. Pois isso vem da escolha dos ORIXÁS e não meramente do nosso "BEM QUERER"

Vamos ver o que uma palavra tirada da BÍBLIA SAGRADA CATÓLICA, nos diz sobre isto. Quem quiser ler depois esta em ECLESIASTES, CAPÍTULO 3, VERSÍCULOS DE 1 ATÉ 8. Vamos lá: 

"Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus: tempo de nascer, tempo para morrer; tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado; tempo para matar e tempo para sarar; tempo para demolir, e tempo para construir; tempo para chorar, e tempo pra rir; tempo para gemer, e tempo para dançar; tempo para tirar pedras, tempo para juntá-las; tempo pra dar abraços, e tempo para apartar-se; tempo para procurar, e tempo para perder; tempo para guardar, e tempo para jogar fora; tempo para rasgar, e tempo para costurar; tempo para calar e tempo para falar; tempo para amar, e tempo para odiar; tempo para a guerra e tempo para a paz." 

Ou seja percebemos que de fato, tudo tem o tempo. Não importa se o seu tempo de ABIÃN (caso ainda esteja nesta situação) dure: um dia, uma semana, um mês, um ano ou vários anos. Mas tudo tem o tempo certo de acontecer. Assim como existe o tempo certo para um YAWÔ chegar a ser um EGBOMI

Nada mais são que exatamente SETE ANOS de puro aprendizado. Tempo que hoje, infelizmente, vemos muitos com pressa de chegar. Ao ponto de se atropelar as coisas. Buscando logo mesmo sem ter os seus ditos SETE ANOS seguir-se a fazer coisas como se já fossem os sábios e entendidos. 

Bom existe tempo pra tudo, inclusive de alertar que: "Jesus também falava: O REINO DOS CÉUS NÃO FOI FEITO PARA OS SÁBIOS E ENTENDIDOS. MAS PARA OS PUROS DE CORAÇÃO QUE SABEM OUVIR A VOZ DO MEU PAI"

Então queridos ABIÃNS, um conselho de propriedade própria. Não se da cabeça para qualquer pessoa. É a sua cabeça, a sua vida, o seu destino que esta em risco. Quer vir a ser um Yawô, ótimo seja mesmo. Mas busquemos ser Yawôs que zelem, que saibam esperar os tempos certos, com acima de tudo humildade. 

Não importa se você já tenha um dia, cinco anos, ou mais de ABIÃN. O ORIXÁ sabe a hora certa e o lugar certo para ele nascer. Faça essa escolha sabiamente, cautelosamente. Aprenda a namorar o lugar, pois o ORIXÁ vai mostrar de fato o lugarzinho certo para ser iniciado. E se você se sentir apressado, pressionado ou como que empurrado para dar logo seu passo de iniciação; cuidado ALI PODE NÃO SER O SEU LUGAR

Afinal tudo tem seu tempo.

COLETÂNEA OXUM, NOS CAMINHOS DO ABIÃN - O DISCERNIMENTO


( Trechos O Abiyan / O Adosu: Olòrisá) 

(...) O período de Abiyan é de suma relevância, principalmente para os de conta-lavada e o de obrigação de borí. É o período de experiência, digamos assim; podem refletir sobre as responsabilidades do filho de santo, de maneira apurada. Ver se é isto mesmo que desejam. 

Vão conhecendo o Egbé, pensando sobre a hierarquia, vivenciando o dia-dia 
do Ase. Devem observar o comportamento dos mais velhos, e dos Olóyè; falar pouco e abrir os ouvidos. Verificar de adaptam ao Ilê e a Iyálòrisa. 

O tempo mais significativo na vida de um filho-de-santo é este o de Abiyan. É temerário a iniciação imediata de pessoas completamente neófitos sobre a complicada hierarquia do Mundo dos Candomblés. Daí erros, arrependimento e acusações. Hoje em dia tem muita pressa de se infiltrar pelos os corredores de um terreiro, sem qualquer respaldo. 

Há iniciadores que, talvez por inexperiência, ganância e outras diferentes razões, voa logo botando os clientes no Quarto-de-Asé. Na maioria das vezes, isto não dá certo, acaba sendo motivo de arrependimento e frustrações para ambos os lados. 

Têm que haver vivência previa, antes. Em especial as pessoas mais esclarecidas e eruditas. 

No nosso Asé não dispensamos o período de Abiyan, salvo casos extremados, de vida ou morte. Cada caso é um caso... em geral o Orisá espera, se quer o melhor para o seu filho. Não cabe a nós julgar e, sim, orientar. A pressa é inimiga da perfeição. 

(...) Todos os iniciados têm de se conscientizar de que são a essência desta religião milenar, tão deturpada. São sacerdotes de Orisa, seu templo, a religião do Orun com a terra: passado, presente e futuro. (...) O Egbón ou Egbómi, expressão usual está, de direito apto a ser um iniciador, podendo participar do corpo de Olyé do terreiro. O conselho religioso é formado por Egbón, escolhido para o desempenho de determinadas funções. 

As Ojúbóna são Egbón apontadas para criar Iyáwó no Quarto-de-Asé: é importantíssimo o trabalho delas. São as “Mães-Criadeiras” do iniciado, responsáveis pelo aprendizado desenvolvido, em principio dos sete anos. Elas agem como intermediárias entre o Iyáwó e Iyálòrisa. Hierarquia é tudo: princípio, meio e fim. Sem ela, o caos... 

Trevas, desinteligência, falta de comando anarquia. Não é certo, pela hierarquia, que um Olòrisá vá ter com a Iyá, desprezando bons conselhos da Ojúbóna, a menos que esteja havendo alguma coisa terrível, muito errado: se a confiança que Sàngó e sua representante depositaram na mãe pequena do filho não estiver sendo correspondida. Então é preciso acertar tudo, o que é constrangedor e triste. 

Não tem sentido uma Adosu sem educação, ignorante, bruto, de nariz em pé, senhor da situação e da verdade. Existem três tipos de Adosu às avessas: o cabeça dura, o rebelde e o desinformado, mal orientado. O rebelde sofrerá muito vitima de si mesmo entregue a própria sorte. O desinformado poderá está sendo vitima de uma trama diabólica: a sonegação de informações e disciplina, como forma de agressão dos insatisfeitos e falsos, à figura da Iyálasé. 

“Estão vendo os filhos de Fulano? Não tem a mínima educação... por mim... eu mesmo! No meu tempo... e bla ,bla ,bla... “ 

O mais velho irresponsável está entregue à própria sorte. As conseqüências podem ser terríveis para omissão do maldoso ou covarde. Existe um dia, único dia, sem retorno, no qual o Adosu, por mais sábio que seja, depende dos outros... O julgamento é atroz. 

O Iyáwó, alem dos deveres dos filhos-de-santo assentados, é sujeito a outros tantos mais complexo. É necessário que saiba tudo a respeito da vida do terreiro: ciclo de festas, obrigações dos irmãos mais velhos, borí entrada de Iyáwó, asese. Deve participar na medida do possível, de diferentes obrigações, para que aprenda. 

Tem que aprender a dançar, cantar, responder os cânticos, comporta-se com dignidade, consideração, simpatia. Hoje é filho amanhã quem sabe? 

Em iniciação não se queimam etapas. Iyáwó que não viveu a vida de Iyáwó será um Egbón frustrado. Diga-se o mesmo para o Abiyan. (...) É lamentável um Iyáwó isolado dos demais, em virtude de seu comportamento reprovável, em desacordo às condições de Adosu. 

(...) Tudo por disciplina e, mais importante, amor! Talvez nem saibam o ase que adquirem... (...) É o cumulo a falta de traquejo. 

O bom senso é transmitido ou depende da sensibilidade de cada qual? A educação doméstica é trazida “de casa”. O novato sempre é novato na religião, tem que aprender o bê a bá. A hierarquia e a disciplina têm que ser mantida. O respeito aos Àgba é a essência da cultura Yoruba; as mensuras, saudações rituais, etc... quem ama o Ase deve evitar que pereça. Somos responsáveis por nossos atos. 

MARIA STELLA DE AZEVEDO SANTOS, 
EDITORA ODUDUWA, SÃO PAULO, 1993

COLETÂNEA OXUM, NOS CAMINHOS DO ABIÃN - A ESCOLHA CERTA


Tomei a liberdade de pegar uma das postagens do FACEBOOK, que na verdade, não era bem essa que eu queria. Mas como o sentido é o mesmo, esta me da liberdade para abordar este tema, o qual eu prefiro postar com minhas próprias palavras. 

Muitas e muitas vezes, tenho percebido situações quanto a dificuldade hoje em dia de se achar uma casa séria, verdadeira e com Axé. Hoje infelizmente tenho percebido uma grande quantidade de casas abertas, coisa que acho louvável, mas em certo ponto muito triste também e explico o motivo que falo isso. 

Pessoas despreparadas, pessoas sem ter seus anos de santo literalmente completos e se apresentando com a maior cara lavada como BABALORIXÁS ou YALORIXÁS, brincando não somente com a vida das pessoas mas com os ORIXÁS

A procura de uma casa certa, também já foi motivo de vários contratempos até mesmo na minha vida. Onde até comentários de uma pessoa que aprendi a gostar, mas por ver atitudes que não estavam de acordo com meu modo de ser, me entristeceram ao ponto de fazer questão de deletar da minha vida. Me fizeram ouvir este triste comentário: "Como pode uma pessoa viver 15 anos como Abiãn e não se iniciar logo de cara?" 

Bom, eu antes de mais nada, só posso dizer: "QUE PENA SOBRE ESTE COMENTÁRIO". Por que no bem da verdade, podemos ficar o tempo que quisermos como Abiãns. Pois nunca se deve entrar num ILÊ ASÉ, sem ter o mínimo de conhecimento sobre a procedência do local, a procedência do zelador (a) do local, enfim, são vários os aspectos que devemos por na balança para discernir se ali é ou não o local onde deve se dar o processo de iniciação. 

Na minha jornada de 40 anos de idade, já passei por lugares dos mais luxuosos aos mais simples. E no bem da verdade, percebia que não parava em lugar algum e sempre me questionava por isso. Mas os meus questionamentos nunca se preocuparam com isso pois sempre tive na minha concepção de quem escolheria a CASA CERTA, SEM SOMBRA DE DÚVIDAS, SERIA MEU ORIXÁ, no meu caso meu PAI OGUM e MEU PAI OXAGUIAN

Mas por que resolvi partilhar isso com vocês? Por um simples motivo, tenho visto hoje muitas casas apresentarem uma vasta oportunidade "falsa" para se iniciar pessoas para a RELIGIÃO. E isto não procede, pois o ORIXÁ sabe bem quem é que vai seguir o caminho de fato correto na RELIGIOSIDADE. E este ato impensado de forçar uma iniciação não vem de acordo com o que se via e se pratica nas verdadeiras CASAS DE AXÉ. Onde de fato não se visa uma quantidade de pessoas iniciadas (raspadas), mas sim uma QUALIDADE. Coisa que tenho percebido foi meio que colocada de lado. 

Nem todos nasceram para ter funções ou cargos, quanto mais, nem todo mundo nasceu para ser BABALORIXÁ ou YALORIXÁ. Me perdõem os meus mais velhos, MAS QUEM É DE AXÉ DE FATO, SABE MUITO BEM QUE ESTOU FALANDO O CERTO E COERENTEMENTE. Nem todos nasceram para ter uma casa aberta. 

Então meus amados, antes de tomar qualquer tipo de decisão, namorem primeiro muito bem a casa onde você pode estar participando. Analisar situações, ver o comportamento do(a) Zelador (a) e dos filhos da casa, é uma prática louvável. E se algo te incomodou, converse com quem de fato importa suas perguntas. Caso não esteja satisfeito, parta pra outro sem medo de ser feliz. 

Afinal como diz a mensagem, o que não podemos é desistir, pois se na sua vida esta destinado a ser e viver no Axé... pode ter certeza onde você estiver o seu ORIXÁ vai te levar direitinho onde ele quer ser iniciado ou dar sua obrigação. E se já esta numa CASA DE SANTO, seja na UMBANDA OU NO CANDOMBLÉ firme suas raízes, nunca pelas pessoas, mas sim pelo seu ORIXÁ

Afinal tudo que é feito por amor aos ORIXÁS, produz frutos 100 por 1.

PALAVRAS DE PEDRO MANUEL T' OGUM

Motumbá meus irmãos e irmãs do BLOG OLHOS DE OXALÁ.


Bom dia a todos. Com grande alegria venho hoje me dirigir a todos vocês para agradecer não somente a participação através de suas visitas diárias; mas agradecer também os comentários que estão aqui aparecendo relatando o quanto esta sendo bom este meio de comunicação para todos através de suas postagens.

Nada disso estaria acontecendo se não fosse você, que esta lendo estas minhas palavras, neste exato momento. Pois cada postagem, cada artigo ou até cada página foi exatamente pensada e repensada para que de forma clara todos estes assuntos pudessem chegar até você bem objetivamente.

É válido lembrar que muitas das postagens que ainda estamos postando aqui são da grade antiga, antes de darmos o passo de reformular a SEQÜÊNCIA dos assuntos em questão. Lembrando que desde Dezembro do ano passado (2012), até hoje, ainda estamos falando sobre OXUM. Mas seguindo este mesmo tema central estamos acoplando de fato, assuntos que na primeira vez foram esquecidos. 

Mais válido ainda é ressaltar que tudo que temos postado até agora é de uma forma bem básica, pois aprofundamentos mesmo de fato, só compete a cada BABALORIXÁ ou YALORIXÁ em questão para fazê-lo dentro de suas casas de Asé.

Hoje, estamos mais voltados aos assuntos que envolvem a hierarquia. Desde o tempo que todos ainda são ABIÃNS, passando para YAWÔS, até chegarem à idade de EGBOMIS. Buscando ressaltar que cada realidade em anos é um processo lento e que cada coisa no seu devido tempo deve ser seguido e aprendido. Evitando assim, situações como temos visto quanto a muitos quererem pular ETAPAS, que NÃO É E NEM PODE SER correto. 

Pois é válido lembrar que NEM TODOS nasceram para ser BABALORIXÁS ou YALORIXÁS. E muitos hoje em dia nem esperam o tempo devido para receber seus devidos direitos sacerdotais. E nisto o BLOG OLHOS DE OXALÁ, é literalmente contra. Buscando de fato manter, conservar e explicar, que cumprir seus devidos tempos e´de suma importância dentro de nossa religiosidade.

Para ser mais claro, assim como na RELIGIÃO CATÓLICA ou até mesmo na RELIGIÃO PROTESTANTE, para ser um PADRE OU UM PASTOR, o mesmo candidato tem de ter VOCAÇÃO para tão grande grau e função. Na nossa religião é a mesma coisa, cada um tem as suas vocações ou para exercerem cargos SACERDOTAIS ou para serem EGBOMIS. E outros ainda já nascem para serem OGÃNS OU EKEDJIS

Na religião CATÓLICA E PROTESTANTE, são exatamente oito (8) anos para se chegar ao SACERDÓCIO, na função de PADRE (catolicismo) e exatamente de 5 a 7, conforme a denominação religiosa PROTESTANTE, para se chegar ao cargo de PASTOR. Ou seja, tudo tem seu tempo. Na nossa religião é necessário o cumprimento das devidas OBRIGAÇÕES: INICIAÇÃO, OBRIGAÇÃO DE 1 (UM ) ANO, OBRIGAÇÃO DE 3 (TRÊS) ANOS E OBRIGAÇÃO DE 7 (ANOS). Todas devidamente arriadas. E mesmo assim, lembrando que quem escolhe a função ou cargo a ser exercido é o próprio ORIXÁ, através do JOGO DE BÚZIOS OU IFÁ, que determina conforme a sua vocação estabelecida. Nada mais, nada menos.

Então neste dia 15/01/2013, vamos de fato prestar muita atenção nas postagens que vamos aqui postar a fim de compreender melhor e buscar de fato cumprir as regras de acordo com a VOCAÇÃO estabelecida pelo seu ORIXÁ. Lembrando que OXUM, esta de fato, presente neste processo todo desde a INICIAÇÃO, sendo ela SENHORA DO ÚTERO, ou seja, SENHORA DO RONKÓ, SABEJÍ ou como muitos conheçem também chamado PEJI.